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Pedro pedreiro

11/04/2003 by in category Contos, Vídeos tagged as , , , with 0 and 0

Pedi para tirar as botas ortopédicas. Queria brincar na terra. Foi nesse momento que minha mãe resolveu me dar um presente que mudaria minha vida. Um tijolo. Tinha mais ou menos uns vinte centímetros de comprimento, dez de largura, pesava em torno de oitocentos gramas e no meio estava escrito em alto-relevo: “Bom menino não se suja na terra”.

Peguei o bloco retangular sem saber o que fazer com ele. O peso da frase não me agradava, mas era um presente. Minha mãe, percebendo minha falta de prática com o tijolo, rapidamente explicou: “Meu filho, tijolos são pesos feitos para nós, pedreiros, carregarmos nas costas”. Em seguida, com muita paciência e cuidado ela me ajudou a colocá-lo sobre meu ombro direito. Para contrabalançar, ela colocou outro tijolo no meu ombro esquerdo. Nesse estava escrito: “Equilibre os tijolos com cuidado e nunca deixe-os cair”.

Mal sabia eu que outros tijolos ainda estavam por vir. Durante a juventude, ganhei centenas deles. Não vinham apenas de meus pais, mas de toda a sociedade pedreira. Alguns eram contraditórios. No colégio, por exemplo, recebia tijolos dos professores que diziam “Quem é esperto estuda e faz lição”, mas na hora do recreio, recebia dos colegas tijolos que diziam “CDF é bunda mole, esperto é quem cola”. Era difícil para mim equilibrar os tijolos conflitantes, mas como não podia deixá-los cair, sempre dava um jeito.

Lembro de uma época, no meio da adolescência, em que me revoltei. Senti uma necessidade profunda de me livrar daquele desconforto. Um pedreiro amigo me aconselhou a usar drogas. As químicas não tiravam os tijolos das costas, mas anestesiavam meus ombros eliminando assim a sensação de desconforto. Pena que quando o efeito químico acabava, o peso voltava. Por fim, aquilo que servia como alívio, acabou virando mais um tijolo para carregar.

Me tornei um pedreiro famoso na idade adulta. Ganhei muito dinheiro, dei palestras sobre construção civil, comprei carros, casas, tive filhos e muitas esposas, mas tudo parecia ter o mesmo efeito das drogas, entorpeciam durante algum tempo e depois viravam tijolos também. Em pouco tempo o peso dos tijolos era tanto que minha vida se resumia em alternar sofrimento, raiva e doença.

Cheguei ao fundo do poço num domingo. Já que nada material dava conta de eliminar minha dor, fui até a igreja mais próxima pedir misericórdia. Entrei no confessionário e saí com um tijolo que dizia: “Você é pecador”. Não foi difícil sentir o peso dessa culpa também. Caminhei mais um pouco e caí aqui neste caixão. Agora não sinto mais o peso dos tijolos. Nem sinto o peso de mim mesmo. Estou inerte e com os lábios cerrados. Contudo, ainda tenho força suficiente para lhe entregar este tijolo. Você pode aceitá-lo ou pode ir brincar na terra.

Eu, finalmente, vou brincar.

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