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Arnaldo Jabor quer descabaçar Peter Pan

26/04/2003 by in category Prosa tagged as , , , , with 0 and 0

Eu leio crônicas andando de bicicleta. Transformo os textos em arquivos de mp3, coloco no celular, plugo o fone de ouvidos e pronto: biciblioteca.

Atualmente estou ouvindo 708 crônicas maravilhosas. Peguei na internet. Memorizei o número 708 porque tive que dar 708 espaços entre as crônicas para o programa transformar os 708 parágrafos em 708 arquivos de mp3.

As crônicas estão em ordem alfabética de autores. Começa com Adélia Prado e termina com Zuenir Ventura. Já ouvi mais de 80 crônicas e ainda estou na letra A. Eis porque do título escandaloso.

Depois de bater uma bola com Armando Nogueira, Arnaldo Jabor entrou em campo e não saiu mais. Das 708 cronicas, 120 são do cara.

Fiquei contente e triste quando Jabor chegou aos meus ouvidos. Contente porque gosto do escritor, triste porque o escritor que eu gosto só gosta de escrever sobre política.

Exagerei e generalizei. Mas Jabor também exagera e generaliza. Todo crítico exagera e generaliza. Só estou devolvendo o veneno.

Até gosto de política, o que não gosto são 119 crônicas de política contra uma só de amor, poesia e prosa.

Mas Jabor não quer fazer amor comigo. Jabor quer me foder. Quer descabaçar o Peter Pan e a Poliana que habitam em mim.

Jabor me conta do saneamento da pobreza. Quer me foder sem preliminares. Ao invés de flores, me entrega o exame de próstata da sociedade brasileira. Quando faz um floreio é apenas para me manter na sua cama de gato.

Jabor é o replay do avião colidindo contra as torres gêmeas. Jabor é Ernesto, eu sou habitante da terra do nunca. Jabor é a mãe do Erasmo Carlos, eu sou criança não entendo nada. Jabor é o lobo mal humorado, eu faço cu doce.

Aperto o botão no celular e pulo para o próximo arquivo de mp3. Jabor insiste. Aperto o botão de novo. Jabor insiste. Aperto o botão de novo.

Crônica 130. Fim do tempo de Arnaldo Jabor na tribuna do meu celular. O sapo nem sempre entra na boca da cobra.

Jabor ameaça reclamar.

Alerto: democracia.

© 2020 · Marcelo Ferrari