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Ponto de Ícaro

11/04/2003 by na categoria Crônicas, Skateando tagged as , , , with 0 and 0

As vezes vou até a cozinha, coloco um fio de água na frigideira e acendo o fogo. Faço isso para assistir de camarote o líquido se transformando em vapor. Aguardo com paciência a aparição das microbolhas e recordo as palavras ígneas da professora de ginásio: “Água vira vapor quando chega no ponto de ebulição”. Hoje sei que pessoas também entram em ebulição. Chamo esse momento de Ponto de Ícaro. Escolhi esse nome porque Ícaro teve de criar asas para escapar do labirinto.

O Ponto de Ícaro não tarda e nem falha. Só que marcha com botas de lã. Quando menos percebemos, já é, já Ícaro. Recentemente vi um Ponto de Ícaro no documentário Dogtown and the Z-boys. Vou contar um pouco do que aconteceu antes de chegar no ponto.

Antes dos Z-boys, surfistas que viraram skatistas, a maioria dos skatistas andavam de skate numa mistura de brincadeirinha de circo com saltos de atletismo. Foi quando Jay Adams entrou na cena. O Ícaro do skate foi participar de um campeonato tradicional e fez manobras que deixou o público e os juízes sem entender nada. Jay era mais do que um participante, era uma nova forma de vida sobre rodas, uma nova forma de ser a mesma coisa, um novo skatista. Os juízes, espantados, não sabiam sequer como julgá-lo. Os outros competidores ficaram putos, mas a platéia ficou extasiada.

Naquele verão, Dogtown passou por uma forte estiagem e todos os cidadãos foram obrigados a esvaziarem suas piscinas. A serpente da gênese foi chamada. Sua missão foi convencer os Z-boys a invadirem os quintais e fazê-los enxergar ondas nas superfícies curvas das piscinas. Nasceu assim o skate vertical. E quando todos já estavam deslizando pelas paredes côncavas, Jay Adams recebeu um impulso de Ícaro e começou a subir… subir… subir… Só que a parede da piscina acabou e Jay continuou subindo… subindo… subindo…

Talvez seja por isso que Jay Adams acabou se envolvendo com drogas em vez de se envolver com a mídia. Talvez o que Jay tenha visto naquele vôo vertical seja perturbador demais para fazê-lo voltar a morar numa vida horizontal. Talvez seja esse o êxtase que esteja por trás do visceral mantra “skate or die”. Talvez seja por isso que sentimos dor nas costas e no peito. Asas atrofiadas querem crescer e o coração quer sair do labirinto.

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© 2018 · Marcelo Ferrari