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C
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Admita

26/04/2003 by in category Imperativos, Poesia, Vídeos tagged as , , , with 0 and 0

Primeiramente, admita seu medo de admitir, coleira que controla o limite da sua sinceridade.

Segundamente, admita que mente. Que mentiu ontem, quando disse à João que Pedro mora no seu coração de pedra.

Admita seu espírito de porco, anti-olímpico, que não sabe perder, mas finge que sabe.

Admita que várias vezes, várias vezes, várias vezes, inclusive agora, tem vontade direta e reta de mandar aquele filho da puta tomar no cu, mas não faz isto porque caga de medo de colocar o cu na mesma reta que ele tira o dele.

Admita que pensou, que sentiu e que escreveu uma carta abrindo seu coração para o inimigo, mas não teve coragem de enviá-la, nem de rasgá-la, trancou a carta na gaveta junto com sua fé.

Admita que é tudo pose, tudo pose, tudo pose de querer ser. E que embora negue, tudo pode, tudo pode, tudo pode ser.

Admita que é um saco de arroz comer feijão com garfo e faca, limpar a boca no guardanapo pendurado na dispensa, quando se tem a manga da camisa ao alcance da mão.

Admita que é uma merda falar que não foi legal, quando foi uma merda. Que é um caralho falar que é legal, quando é ducaralho. Que é uma boceta ficar respeitando etiqueta só para rimar com a expectativa dos outros.

Admita que você se esconde atrás da ironia, da pia, das desculpas de uma culpa que você mesmo mantém pregada na cruz.

Admita que não virou a página, que está rebobinando a fita, dando loops, buscando a kriptonita que irá transformar você em superman e o superman no coco do cavalo de gotancity.

Admita que menospreza a fé do analfabeto, mas que na hora do desespero, seus olhos se ajoelham e seu coração reza feito romeiro.

Admita que não acredita em vida após a morte, mas morre de medo de fantasmas.

Admita que duvida de deus por causa da ciência, que duvida da ciência por causa de deus, mas que ignora completamente a causa de não conseguir parar de duvidar.

Admita que por pudor, medo da dor, machismo, ou seja o que for, você nunca diz, eu te amo, apenas responde: eu também.

Admita que as mil e um trepadas que conta aos quarenta ladrões não passam de baba.

Admita que foi você que peidou, mostre a mão amarela.

Admita que é gay.

Admita “eu não sei”.

Admita que a piada foi horrível, que foi mico, que trocou os pés pelas mãos, as mãos pelas orelhas e fez papel de tonto.

Admita e pronto!

© 2020 · Marcelo Ferrari