Escrevi uma crônica falando do racha de sexta e o povo do racha de quarta ficou com ciúmes. Exigiu representatividade. Ainda bem que semana só tem sete dias. Vamulá cobrar mais um tiro de meta. Assunto não falta. Mas falar do que especificamente?
Tem várias maneiras de chutar uma bola e várias maneiras de descrever um racha. Péra! Eu disse chutar uma bola? Já sei! Vou falar do Chico. O racha de quarta é o racha do Chico. Pronto, já falei tudo! O que? Você não conhece o Chico? Vou descrever ele para você.
Na primeira vez que fui participar do racha, ele me pediu para pegar uma tampinha dentro de um saco de pano. Sacou que tipo de cara é o Chico? Chico é do tipo que joga futebol de tampinha e não futebol de panela. Nem tinha visto o Chico jogar ainda e ele já tinha feito um gol no meu conceito.
“O que você faz?”, Chico me perguntou. Minha resposta sincera é incompreensível: “eu vivo”. Afinal, o que mais tem para fazer na vida? Mas não ignoro os protocolos sociais, sabia que ele se referia a profissão. O problema é que não tenho uma. Não uma que sirva para responder de bate pronto. Improvisei: “Sou escritor”.
E foi assim que Chico, rotineiramente, começou a fazer uma brincadeira comigo após cada gol seu: “Ae escritor, coloca esse gol no seu livrolá!”.
Chico dribla e chuta muito bem. Aliás, seu jeito de chutar foi o que me inspirou a escrever essa crônica. Chico chuta de bico. Não qualquer bico. Bico no canto. Quase sempre raspando a trave. Pontaria de franco atirador.
Outro dia comentaram que esse é o segredo dele. Para mim, não é segredo, é explícito. Chico não é peito de pé, nem peito de peru, é arroz com dedão. Chico é gol de bico. Sem chute de bico o Chico fica chique e descaracteriza o cara.
Pronto, falei! Espero ter colocado no livrolá metade dos gols que o Chico já fez e me pediu para escrever. Espero também ter colaborado para deixar maiúscula uma habilidade considerada minúscula: o chute de bico.