Ela na janela

22/04/2003 by na categoria Crônicas tagged as , , , , with 0 and 0

Primeiramente: o tio é gatão.

Não se preocupe em entender isso, é apenas algo que eu não podia deixar de falar. Entendedores entenderão. Tendo dito, vamos à crônica….

“Só faltou você escrever a crônica”, minha sobrinha me disse no fim da nossa viagem. Olha que sensacional! Essa crônica começa pela ausência crônica dessa crônica. Fiquei contente. Não tem maior sinal de apreço do que sentir falta. Ninguém sente falta de coisa desagradável. “Que saudade de assistir domingão do Faustão!” Já ouviu alguém falando isso? Nunca! Eis porque fiquei contente com a tristeza da minha sobrinha.

Na viagem do ano anterior, decidi escrever uma crônica por dia relatando, de forma divertida, os fatos do dia. Escrevia e postava no grupo de whatsapp da família. Até quem não estava participando da viagem aproveitava a viagem. Ela sentiu falta das crônicas do tio Gatão e não sentiu falta do Domingão. Quem ganhou nesse ibope? #ChupaFaustão!

Surpresa! Porque de surpresa é melhor! Olha a crônica aqui! O que faltou foi saco para ficar digitando no teclado do celular e ainda ter que ficar corrigindo as correções do corretor ortográfico. Sei que o corretor ortográfico é um chato bem intencionado, mas de boa intenção o inferno está cheio. E digitar uma crônica num teclado de celular é igual colocar o Michael Jackson para dançar nas dunas de Fortaleza, é muito esforço para pouco resultado.

Agora cheguei em casa. Aqui é notebook porra! Então vamos lá tocar esse ukulelê de letras chamado teclado. Só que é muita coisa para contar numa crônica só, então, vou apenas descrever a paisagem mais bela que vi nessa viagem.

Estava fritando de febre e puto com a brisa incessante que vinha de todos os lados. Na busca pelo impossível, encontrar um lugar na pousada sem vento, fui me abrigar perto da piscina. Foi então que ouvi uma música de adulto sendo cantada com voz desafinada de criança: “Vou voltar na primavera / Era tudo que eu queria / Levo terra nova daqui / Quero ver o passaredo / Pelos portos de Lisboa / Voa, voa que eu chego já…” .

Era a voz da minha sobrinha. Olhei na direção do som e revi o jardim do éden. Uma menina de nove anos, sentada na janela, viajando pelos melancólicos portos de Lisboa como se fosse uma Paquita cantando música da Xuxa.

Que inveja a serpente deve ter tido da ingênua felicidade de Adão e Eva, talvez por isso os ludibriou a comer a maçã. Naquele breve instante, ao ver minha sobrinha cantando MPB sentada na janela, quis fazer com ela o que todos os pais gostariam de fazer com seus filhos ao vê-los sorrindo, colocá-los numa redoma para evitar que qualquer infortúnio pudesse retirar sequer um triz daquela felicidade. Senti também o desespero dos pais ao verem todos os seus esforços caírem por terra.

Ah! Vira virou! É preciso sair da ilha para ver a ilha. Ela saiu da janela. Todos saímos. Alguns conseguem voltar. Espero que ela também consiga.

Egoísmo maior (música)
Ela não faz boquete
© 2018 · Marcelo Ferrari