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Entre uma sabonetada e outra

22/04/2003 by in category Prosa tagged as , , with 0 and 0

O telefone toca. Vou atender. É Lima.

Deduzo que vou ficar uns vinte minutos por ali. Puxo uma almofada e me estico no sofá. No meio da conversa, ele menciona a palavra epifania.

— O que é isso? — pergunto.

— Epifania — explica Lima — é o momento sagrado da inspiração. Ontem, por exemplo, senti o cheiro do sabonete enquanto tomava banho e fui atacado por uma terrível epifania. Já faziam 3 anos que não conseguia escrever sequer um bilhetinho para minha esposa, mas bastou uma fungada naquele perfume barato de sabonete e as ideias começaram a despencar na minha cabeça junto com a água do chuveiro.

— O que você fez?

— Entre uma sabonetada e outra, comecei a rascunhar mentalmente uma carta de amor.

— Legal! Como era?

— O primeiro parágrafo era íntimo, falava de coisas que só nós dois sabíamos. O segundo e o terceiro, ampliavam meus sentimentos ao máximo. Seguia-se então uma passeata de versos doces e românticos. Quando terminei o banho, a carta já estava pronta, só faltavam alguns detalhes. Então…

— Então o quê!?

— Então, não sei por que, fiquei muito exigente.

— Exigente!?

— Eu li a primeira frase. Era ótima, mas achei que o verbo escolhido não estava encaixando. Meus sentimentos no segundo e no terceiro parágrafos eram verdadeiros, mas não eram poéticos. Para finalizar, desconfiei da passeata romântica, que me pareceu cansativa e piegas.

— Escreveu a carta ou não?

— O que você acha?

— Sim.

— Não! Minha epifania entrou pelo cano junto com a água suja.

— Credo!

— Mas você entendeu o que é epifania?

— Entendi e preciso desligar.

— Onde você vai?

— Estou com epifania nos dedos.

© 2020 · Marcelo Ferrari