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SKATE NO VÉIO

17/07/2019 by na categoria Crônicas, Skateando tagged as , , , with 0 and 0

Desde que inaugurou a pista de skate do Praia Clube, montei um skate e fui andar lá todos os dias, de segunda a domingo, sem faltar um dia sequer. Teve uma segunda feira que o clube fechou para tradicional manutenção e eu fui andar na pista do Jardim América. Garrei no skate. Tem uma menininha lá no clube que até me chama de piolho.

São aproximadamente dois meses na mini ramp, balançando igual sino. Vai e vem, vai e vem, vai e vem. Aliás, vai, faz manobra, vem, faz outra manobra, vai, faz outra manobra, vem… Isso nos dias bons. Nos dias ruins, vai, bate o skate na canela, cai, levanta, vem, bate com o skate no maléolo…

É! Quer aprender os nomes dos ossos dos pés? Vai andar de skate. Maléolo é aquele osso lateral da canela. Depois do chute no saco, uma skatada no maléolo é a segunda maior dor que um ser humano pode experimentar. Tá! Exagerei. Mas que dói pra caralho, dói.

Cheguei na pista achando que iria conseguir fazer alguma coisa, que era igual andar de bicicleta, que o corpo nunca esquece. Engano meu. Esqueci tudo. Outra coisa é que não sabia fazer nenhuma manobra de mini ramp. Nunca tinha andado de mini ramp antes. Na época que eu andava de skate ainda não haviam inventado a mini ramp. Período paleolítico. Só existia street e half.

Não é questão de aprender tudo de novo, é questão de aprender pela primeira vez. O que me coloca em pé de igualdade com todos os molequinhos de 8 anos que seguram na mão do instrutor para aprender a dropar. Aliás, para aprender uma manobra chamada rock and roll, aproveitei da generosidade e da mão do instrutor também.

Tô escrevendo esse texto para fazer um balanço dos dois meses. Lembro bem da primeira semana. Foi osso. Levei um tombaço. Bati a costela do lado do coração e perdi a respiração. Quase desmaiei. A costela deve ter fraturado de leve. Parado não doía tanto, mas durante duas semanas, tossir parecia um parto. Grudei um emplastro Salompas na costela e voltei para pista.

Fora a dor, todo dia aprendia uma manobra nova ou melhorava as já aprendidas. Isso me motivou a prosseguir apesar da previsão de dores futuras. Investi em equipamentos de proteção e isso também me motivou a enfrentar as dores da aprendizagem. Depois de muito treino, aprendi as manobras básicas, firmei em cima do skate, fiz as pazes com a lei da gravidade e passei a cair bem menos.

Não sei que bicho me mordeu para voltar a andar de skate depois de 30 anos. Acho que foi o vírus do prazer desportivo associado ao prazer de deslizar e fazer manobras numa onda de concreto. Lembro que quase desisti no dia que entrei na loja para comprar as peças do skate. Me senti um vovô metido a adolescente. O que dirão? Pensei. Foda-se! Pensei em seguida.

Fico feliz de não ter dado ouvidos aos meus próprios preconceitos. Andar de skate está me fazendo bem para saúde e para cabeça. É tipo uma yoga matinal. Acordo, tomo café, coloco o skate nas costas, vou para o clube e ando na mini ramp até as pernas ficarem bambas. A cabeça fica zerada de estresse e neuras.

Minha esposa curte, vê os benefícios, vê minha satisfação, mas acha estranho. Acredita que é uma fase. Que estou saudoso da juventude, que vai passar e vou voltar ao normal. Mal sabe ela que não existe skatista normal.

Sinto muito
Só preciso de quatro
© 2018 · Marcelo Ferrari