Desde que me entendo por vela
estou procurando o cara que risca os fósforos
Eis o fogo de minha angustia
Fogo que me consome
Dizem que minha busca é benéfica
aos que me rodeiam
Que produz luz e calor no ambiente
Que me queimo por isto
Foda-se a luz!
Foda-se o ambiente!
Fodam-se os que amam e odeiam
minha combustão!
Não me queimo por ninguém
Me queimo por mim
Me queimo de desejo sem remédio
Ardo na procura
do cara que risca os fósforos
Ele escapa
feito areia em uma ampulheta
de grãos de fogo
Uma ampulheta
que me leva
que me lava
que me livra
mas que não me dá
a medida
Qual o tamanho do cara
que risca os fósforos?
Talvez amanhã
Sempre amanhã
Nunca! Sempre!
Quando vou encontrar o cara
que risca os fósforos?
No meu centro
tem um umbigo de pano
Meu mundo começa e termina nele
Antes dele, tudo
Depois dele, nada
Será que o cara
que risca os fósforos
está depois do meu umbigo?
O que será que será?
Efeito de parafina
que não sacia
Me lembro de dias de fogo
Não sei quanto tempo
Não sei até quando
— Tudo agora mesmo
pode estar por um segundo
— canta a vela preta
Dizem que só quem sabe
o destino do velório
é o cara que risca os fósforos
Inferno é saber
apenas por não saber
Peço que apareça
com seus fósforos
ou sem eles
Fogo mundo!
Fogo pião!
Não quero perdão
que nem dez mandamentos
vão conciliar
Não quero ficar de joelhos
neste altar
velando o corpo
de um filho que prometeu
voltar sem corpo
Não me conformo com a forma
Todos os santos
de barro e imaginários
estão sendo consumidos
pela mesma pergunta
que me consome
agora e sempre: cadê o cara
que risca os fósforos?
Desde que me entendo por vela
estou procurando
o cara que risca os fósforos
Por quê será?
Para onde vai a vela
quando a vela acaba?
Tenho cá para mim
que agora sim
me foi enfim revelado
Mentira!