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Desejo de aniversário

15/04/2019 by in category Prosa tagged as , , with 0 and 0

Descobri que havia esquecido o documento quando estava no portão de embarque do aeroporto.

Sai correndo. Entrei no táxi. Voei para casa. Voei de volta para o aeroporto.

Deu certo.

Embarquei. Decolei. Chacoalhei no avião. Não caiu.

Peguei outro táxi. Peguei balsa. Chacoalhei na balsa. Não afundou.

Peguei ônibus. Chacoalhei no ônibus. Não quebrou.

Puxei a mala pela rua de paralelepípedo. Cheguei na pousada. Fiz check in. Desfiz as malas.

Fui no supermercado. Comprei água.

Voltei para pousada. Sentei na cama.

Ufa! Havia acabado a correria, mas ainda não havia acabado o dia. Ainda dava tempo para um jantar de aniversário.

Fomos para um restaurante cheio de plantas que toca bossa nova. Pedi sanduíche de atum com ricota. Ela pediu ravióli ao molho de tomate.

Abre parênteses (qual o nome do peixe que caiu do telhado? Aaaaaaatum! kkkkk…) fecha parênteses.

Na saída do restaurante tem uma doceria. Minha esposa comprou um punhado de goiabinhas, depois me ofereceu uma, dizendo: “Esse aqui é seu bolo de aniversário”.

Segurei a goiabinha na palma da mão esquerda e cantei parabéns para mim batendo palmas com o dedão e o indicador da mão direita.

É pique! É pique! Ratimbum! Imaginei uma vela acesa e assoprei. Minha esposa me perguntou se havia feito um pedido de aniversário.

Não fiz. Nem pensei. Quem iria realizá-lo? Deus?

Voltei para pousada. Dormi.

Acordei. Tomei café e fui correr na beira da praia.

Coloquei o fone de ouvidos e corri ouvindo a tarefa dos meus alunos.

Abre parênteses (Sim, Lululu, a vivida vevem em oondas como mamar — e você parafraseou Vinícios de Morais) fecha parênteses.

Eis que surgiu uma onda.

Segundo o código de defesa do consumidor, ainda estava no prazo de validade do desejo de aniversário. Então, lá vai…

Desejo, do fundo do coração…

Abre parênteses (sei que é brega desejar do fundo do coração, mas não tem jeito mais profundo de desejar) fecha parênteses.

…que nossas magoas caíam no chão, igual migalha de pão quando se limpa a roupa. Que a vaidade entre pelo cano feito água suja depois do banho. E que, finalmente, façamos juntos, o que nunca ninguém jamais irá conseguir fazer sozinho: sermos nós.

Assoprei a vela. Ou acendi?

Fiat nós!

Seja o que dois quiser!

© 2020 · Marcelo Ferrari