Mentiras urbanas

14/04/2003 by na categoria Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Entro no ônibus mastigando agendas. O tempo está contra, mas o trânsito está a favor. Nem sinto o percurso. Quando levanto para descer do ônibus, encontro um rosto familiar no corredor. Vacilo por alguns segundos. Posso fingir que eu não sou eu, que não estou vendo o que vejo e que não estou me lembrando do que me lembro. Só que não…

— Oi, tudo bem? — pergunto hesitante ao rapaz.

O rapaz me dá um olhar em branco. Busca agendas dentro de si e sorri.

— Você aqui! 

Descemos do ônibus.

— Mudou para Pinheiros? — ele pergunta.
— Como sabe que me mudei?
— Seu irmão me contou.

Filho da puta! Se tivesse dito apenas o nome do amigo em comum, a dor era menor. Por que qualificá-lo de irmão? Uma pilha de agendas cai sobre minha cabeça. Sinto vontade de voltar para o ônibus, para casa, para o tênis sujo que usava na juventude. Trocamos cartões, mentiras urbanas e nos despedimos para sempre.

— Bom te ver!
— Te ligo.

Meamamais
Mesmo
© 2018 · Marcelo Ferrari