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Veia poética

05/04/2003 by in category Crônicas tagged as , with 0 and 0

A professora leu minha redação em voz alta e disse que eu tinha veia poética. Fiquei preocupado. Minha turma era da pesada. Embora não soubesse o que era poesia, ter veia poética pegava mal. Mas fiquei curioso. Então, quando a aula acabou, fui conversar com a professora e perguntei: “O que é poesia?”.

A professora abriu meu livro de gramática e disse: “Poesia são esses textinhos que não chegam ao final do parágrafo”. Li vários textinhos do livro de gramática. Não entendi o que era poesia. Mas um daqueles textinhos ficou repetindo na minha cabeça feito refrão de música brega: “o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente”. Depois fui jogar futebol. Quando voltei já tinha me esquecido da veia.

Tudo não teria passado de um malentendido se não fosse um violão que ganhei de natal. Passei as férias tentando tocar três acordes. Certa tarde, quando já estava exausto, o violão resolveu conversar comigo. Toquei um pouco e percebi que dizia: “Nana nana é, nana nana é”. Pude sentir uma frase vindo pela mangueira da imaginação. Continuei tocando e a frase jorrou: “Anda jacaré, anda jacaré”.

Como a letra ficou pouca, resolvi aumentá-la no dia seguinte. Peguei o violão e coloquei o jacaré para andar mais um pouco. De repente, surgiu uma segunda estrofe: “Só mais um passinho”. Senti que, passo a passo, estava prestes a parir minha primeira obra prima. Toquei mais um pouco e a canção surgiu completa: “Anda jacaré / só mais um passinho / o rio já está chegando / anda jacaré”.

Coloquei a veia poética no braço do violão e me tornei um compositor. Passei a compor canções e escrever textinhos que não chegam ao final do parágrafo. Alguns me chamam de poeta. Devo fingir bem.

Van filosofia
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