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Tapaflip

13/02/2020 by na categoria Crônicas, Skateando tagged as , , with 0 and 0

“São Pedro deve pensar que skatista é capim e que precisa de muita água para crescer no esporte. Uai credo! Dá uma trégua pro rolê, São Pedro! A chuva molha a pista, retira o atrito da rodinha com o chão e fica impossível equilibrar em cima do treco”. Fiz esse desabafo no grupo de skatistas de Uberlândia, como se São Pedro participasse do grupo, ou fosse mesmo o responsável pela torneira do planeta. Mas já que São Pedro não me ouvia, nem existia, nem dava trégua, fui na garagem andar de skate parado. Treinar uns olies.

Se você não é skatista, vou te explicar o que é um olie, ou melhor, olie air. Olie air é a manobra que dividiu o skate em antes e depois: AOA (antes do olie air) e DOA (depois do olie air). Antes do olie air os skatistas eram como cobras, deslizando, mas sempre rente ao chão. Depois do olie air os skatistas se transformaram em cangurus. Tudo que antes bloqueava a passagem, passou a ser pulado de olie air. Calçadas, buracos, muretas, hidrantes, bancos. Tudo que aparecia pela frente, com a invenção do olie air, deixou de ser um empecilho e se tornou algo para ser pulado.

O movimento do olie air é parecido com o movimento de um cavalo pulando um obstáculo de hipismo e também como a aterrissagem de um avião. Primeiro o skatista faz as rodas da frente subirem no ar, assim como o jóquei faz com as patas dianteiras do cavalo no hipismo, depois a parte de trás acompanha e o obstáculo é transposto planando na horizontal, por fim, o skatista aterrissa com o skate também na horizontal, como um avião. Tudo isso em uma fração de segundos.

Na época que comecei a andar de skate, subir uma sarjeta de olie air era pura emoção. Subir um banco, então, era para virar capa de revista. Só que skatista é zica. Não aguenta ficar parado. Mal aprende uma manobra já quer complicar. Ô bicho que gosta de complicar. Então, como se já não fosse suficiente pular tudo que aparecia pela frente de olie air, começaram a inventar tudo quanto é tipo de variação da manobra. A mais famosa atualmente se chama kickflip, que consiste em fazer o skate orbitar 360 graus enquanto sobe e desce.

Hoje resolvi treinar o tal do kickflip, que nunca consigo. Apoiei a mão na bancada da garagem para facilitar. Depois de muito erro, ao invés de chutar com a perna e o pé, chutei só com a ponta do pé, só dando um toquinho, como se fosse fazer um gol apenas desviando a bola do goleiro. E eis que… Funcionou. Caraaaaaaalho! Assisti uns mil tutoriais. Câmera lenta. Pause. Vai e vem. Peguei mil dicas com os amigos. Mas ninguém me explicou que o segredo era dar um tapa no shape do skate e não um chute. Pooooorra, a manobra devia se chamar tapaflip e não kickflip.

Depois de meia hora de treino, meu pé já havia memorizado o tal do tapa. Então, de repente, pá! Acertei um perfeito, ainda com ajuda do balcão, mas perfeito. Caí com os dois pés na base, totalmente equilibrado. Fiquei parado estático e emocionado em cima do skate. Daí, me dei conta da emoção, e pensei: “Como pode uma coisa tão inútil como fazer o skate pular em órbita de 360 graus deixar uma pessoa tão feliz?”. Me lembrei da frase do homem que pisou na lua: “Um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a humanidade”. Minha felicidade não foi pelo pulo, foi pelo desafio vencido.

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© 2020 · Marcelo Ferrari