Ser Humano Futebol Fama

07/07/2018 by na categoria Crônicas, SHFC tagged as , , , with 0 and 0

Adoro o filme Quase Famosos. Conta a história de William Miller, um adolescente que tem a vida transformada pelos álbuns de rock herdados da irmã. Aos 15 anos de idade, genial e precoce, William já escreve em fanzines e consegue marcar um encontro com seu ídolo, o lendário e incorruptível crítico de rock Lester Bangs. Durante o encontro, Lester percebe a ingenuidade de William e tenta convencê-lo a escrever sobre outro assunto. “O rock perdeu e eles venceram”, Lester diz para William. A crítica de Lester é disparada contra a indústria da música, que vive de transformar arte em fama e fama em dinheiro. Em outras palavras, Lester explica para William que a alma do rock foi vendida.

Acho que o mesmo se aplica a seleção brasileira de futebol. Desde Pelé a seleção brasileira tem enfrentado sempre o mesmo adversário: a fama de melhor futebol do mundo. O que aconteceu no jogo do Brasil contra a Bélgica, foi replay disso. A Bélgica jogou contra a seleção brasileira e o Brasil jogou contra a própria fama. O Brasil não perdeu para Bélgica, perdeu para fama. Não creio que os jogadores da seleção, nem os torcedores, tenham consciência disso, mas é isso. Quando um craque brasileiro pega a bola, ele não tem que driblar apenas o adversário, tem que driblar o Pelé, o Tostão, o Rivelino, o Zico, o Sócrates, o Zidane, o Messi, o Cristiano Ronaldo, etc. A fama de melhor futebol do mundo exige isso. É um gabarito que não aceita menos, só aceita mais.

Nunca foi fácil viver imune a influência da fama. Cada dia fica pior! Vivemos numa sociedade de consumo e é a fama que movimenta todo o mercado. Por exemplo, é a fama que faz o consumidor (quer dizer, torcedor) ligar a televisão e assistir os comerciais (quer dizer, copa do mundo). Ora, se a fama controla a gente que não tem fama nenhuma, imagina o que faz com quem assina um contrato milionário com ela. Imagina o tanto de dinheiro que um famoso perde quando é difamado.

Quase no final de Quase Famosos, o guitarrista da banda que William Miller está acompanhando para escrever um artigo, briga com a banda por causa da influência da fama na produção artística e vai parar numa simplória festa de adolescentes roqueiros. Arrependido de ter vendido a alma, o guitarrista se despe da fama e volta a ser o que é: um roqueiro. Se os jogadores brasileiros se despirem da fama também, o que acontece? Voltam a ser o que são: jogadores? Pode isso, Arnaldo?

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© 2018 · Marcelo Ferrari