Caro Mateus,
Você conhece a doença da paixão? Aquela febre que desafia a lógica e ridiculariza o bom senso. Tipo a insanidade de um moleque que troca toda a mesada por um punhado de figurinhas da Copa? Tipo a persistência de quem vai ao Parque do Sabiá, domingo após domingo, pra testemunhar um time que repetidamente perde a chance de voltar pra Série A, mas que não perde a esperança dos seus torcedores.
Você, que é goleiro, treinador do seu time e torcedor do UEC, sabe sim. Tenho certeza que sabe. E sabe também que a vida é uma artilharia de infortúnios e sem uma paixão pra servir de escudo, ninguém sobrevive nesse jogo.
Fui no racha ontem, anteontem, tresantontem, porque amo jogar futebol. Simples assim. E, francamente, você nem merecia resposta. Merecia o descaso — ou uma daquelas palavras elegantes que os torcedores arremessam das arquibancadas sobre os árbitros. Só respondo porque a literatura é minha outra amante, e sua pergunta foi um cruzamento perfeito que me encontrou livre na pequena área, exatamente como aquele que desperdicei ontem.
Sim, eu sei que errei. Quem nunca?
Amo jogar, o que é diferente de jogar bem. Nunca fui craque. E não é agora, aos 56 anos — com os joelhos rangendo como dobradiças enferrujadas, os músculos batendo retirada e a barriga em avanço — que me tornarei o Zico. Aqui, peço desculpa à juventude por não citar um jogador atual como Messi ou Neymar, mas meu altar sempre vai ser do Galinho.
O essencial está dito. Seu deboche, disfarçado de curiosidade, está driblado e respondido. Se eu avançar mais um parágrafo, serei expulso de campo por postar "textão". Interrompo a partida aqui. Talvez nem devesse ter dado o pontapé inicial, mas paixão é foda! Aos que vieram assistir este jogo de palavras e ficaram até o apito final, meu abraço.