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Resolvido por decreto

07/11/2019 by in category Prosa tagged as , , with 0 and 0

Certa vez, fui convidado para participar de um evento de literatura no Rio de Janeiro, no Circo Voador, berço do rock nacional dos anos 80. O organizador do evento, lindo como um neném, até pagou minha passagem de avião. Separei meia dúzia de poemas e parti.

Assim que cheguei no evento, fui de encontro ao organizador agradecê-lo pelo convite e pela passagem. Ele estava ocupado. Parei ao lado dele e fiquei esperando terminar a conversa com um senhor de cabelos brancos. Ele me viu parado e me apresentou ao Gandalf amazonense: “Esse aqui é o Thiago de Mello, poeta que faz aniversário hoje e que está sendo homenageado neste evento”.

Cumprimentei Thiago como se conhecesse sua literatura. Não conhecia, mas demorou apenas alguns minutos para conhecê-la. Assim que Tavinho terminou de conversar com Thiago, chamou ele ao palco para ler um poema e inaugurar o evento. Com voz doce de água de rio penetrando o mar salgado, Thiago de Mello começou a ler Os Estatutos do Homem:

“Artigo I – Fica decretado que agora vale a vida…

Artigo II – Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III – Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas…

Artigo IV – Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V – Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa…

Artigo VIII – Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo XII – Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor…

Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem”.

Sabe quando você vai trocar a temperatura do chuveiro com o pé molhado e leva um choque? Era eu no circo voador. Puf! Alquimia total e instantânea. Contrariando Lemiski, que afirmou que é impossível resolver problemas por decreto, Thiago de Mello me resolveu por decreto.

Quando voltei para São Paulo, eu era outro homem vivendo em outro mundo. E continuo assim! Não curto fazer tatuagem, mas carrego as estrofes dos Estatutos do Homem tatuadas na alma.

© 2020 · Marcelo Ferrari