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Progesterona derretida

14/04/2003 by in category Prosa tagged as , , with 0 and 0

A loja estava promovendo pocket shows para aumentar a venda de discos. O publico nunca passava de um punhado de descapitalizados como eu. Deve ser por isto que a loja faliu.

Certo dia, antes do show começar, um neguinho que estava na plateia, subiu no palco, pegou o violão do artista convidado e começou a tocar e cantar. A música não vinha da goela, nem do diafragma, nem do pulmão, vinha do útero. Só uma prostituta lambuzada de mel para parir tantas dores com aquela espontaneidade e doçura.

Olhei para os lados procurando o artista convidado. Nada. Comecei a desconfiar que foi o artista convidado que gritou da plateia: “Canta Beradêro!”. Atendendo ao pedido, o neguinho iniciou. “Os olhos tristes da fita rodando no gravador…” E parou. Levantou os óculos de John Lennon e começou a chorar Like a Rolling Stone.

Me disseram que o neguinho era de Catolé do Rocha. Du.vi.de.o.dô. De rocha aquele neguinho não tinha nada. Era progesterona derretida. E fez todo mundo progesteronar junto com ele. Eu inclusive. Progesteronei do Oiapoque ao Chui. Progesteronei porque entrou uma bala no meu corpo. E não foi bala de coco.

© 2020 · Marcelo Ferrari