Meu nome é Marcelo Ferrari. Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

   

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Por que pulei o Pensador?

11/04/2003 by na categoria Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Minha missa é ir na sauna. Primeiro cozinho por 15 minutos feito legume, depois faço a barba e, por fim, vou ouvir música na espreguiçadeira. Outro dia, quando cheguei na parte da espreguiçadeira, peguei a bíblia digital, abri no capítulo spotfy e cliquei no versículo rap. A primeira música que tocou foi Heart to Heart, do Mano Brown. Já conhecia, mas ainda não havia escutado com atenção. Poesia impecável em cada pecado confessado. O mano fica pelado de fraque, tênis adidas e cabeça erguida. Rigor sem ultraje. Fico impressionado com as metáforas.

Depois Emicida coloca o dedo na ferida. Dedo sem metáfora. “Fodam-se vocês, fodam-se suas leis”. A próxima música é do Gabriel O Pensador: Porrada. A letra é boa. A música é boa. Mas pulo. Ao me dar conta do que fiz, me pergunto: por que pulei o Pensador?

Pulei por comparação. Claro que toda comparação é injusta, mas não estou escrevendo para fazer justiça e sim para contar o ocorrido. Pulei o Pensador porque queria ouvir a dor sentida e não a dor pensada. Queria narrativa e não dissertação. Gabriel era um cara branco de classe média deitado na espreguiçadeira e pensando na dor alheia. Gabriel era eu. Por isso pulei Gabriel.

Fico aguardando a próxima música. Nunca chega. Depois de vários minutos de silêncio percebo que acabou a playmissa. Ligo meu pensador e penso: o que é viver senão fazer barulho, ouvir o barulho dos outros e voltar ao silêncio.

Por que a gente é assim?
Porque
© 2018 · Marcelo Ferrari