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Por que pulei o Pensador?

11/04/2003 by na categoria Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Minha missa de domingo é na sauna. Primeiro cozinho feito legume. Depois faço a barba. Por fim, vou ouvir música na espreguiçadeira. Outro dia, quando cheguei na parte da espreguiçadeira, peguei a bíblia digital, abri no capítulo spotfy e cliquei no versículo rap.

A primeira música que tocou foi Heart to Heart, do Mano Brown. Já conhecia, mas ainda não havia escutado com atenção. Poesia impecável em cada pecado confessado. O mano fica pelado de fraque, tênis adidas e cabeça erguida. Rigor sem ultraje. Fico impressionado com as metáforas. Depois, Emicida coloca o dedo na ferida. Dedo sem metáfora. “Fodam-se vocês, fodam-se suas leis”. A próxima música é do Gabriel O Pensador. A letra é boa. A música é boa. Mas pulo.

Claro que toda comparação é injusta, mas não estou escrevendo esse texto para fazer justiça e sim para contar o ocorrido. Pulei o Pensador porque queria ouvir a dor sentida e não a dor pensada. Queria narrativa e não dissertação. Gabriel era um cara branco de classe média deitado na espreguiçadeira e pensando na dor alheia. Gabriel era eu. Por isso pulei.

Fico aguardando a próxima música. Nunca chega. Depois de vários minutos de silêncio percebo que acabou a playmissa. Ligo meu pensador e penso: o que é viver senão fazer barulho, ouvir o barulho dos outros e voltar ao silêncio.

Por que a gente é assim?
Porque
© 2018 · Marcelo Ferrari