Meu nome é Marcelo Ferrari. Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

   

[email protected]

Porque desisti de ser poeta

11/04/2003 by na categoria Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Quando era cria de um anjo reto, fiz algumas oficinas de literatura na biblioteca circulante. Uma delas foi com Carlos Felipe Moisés, poeta e professor da USP. A oficina durou 90 maços de cigarros. Digo isso porque Moisés falava eloquentemente e acendia um cigarro no outro. Tic palavra cigarro estrofe rima quebra parágrafo tac. Ampulheta Souza Cruz. O maço esvaziava enquanto o cinzeiro enchia.

Só dava maluco circulando pela circulante, tanto na platéia como no palco. Me lembro, por exemplo, de um rapaz que estava sempre chorando. Dormia chorando e acordava chorando, ininterruptamente. O cara tinha uma lágrima tatuada na cara. Me lembro de outro que não dormia porque acreditava que dormir era um desperdício de tempo para quem desejava se tornar um intelectual. Foi na circulante também, que Fernando Paixão, sem nenhum exame clínico, diagnosticou que minha bílis é negra. Segundo Fernando, poesia é fruto de melancolia e a palavra melancolia significa bílis negra.

Mas chega de vírgulas, vamos ao ponto. Por coincidência, naquele mês, Moisés estava publicando seu primeiro livro de poemas, uma coletânea de mais de 30 anos de escritos guardados na gaveta. Moisés fez um evento de lançamento do livro na FNAC de Pinheiros, em São Paulo. Naquela época a FNAC nem se chamava FNAC. Procurei no google o nome antigo, mas não encontrei. Se nem o google lembra mais, que dirá eu. Lembro que tinha uma praça com arquibancada na frente dessa FNAC que não se chamava FNAC. Moisés inaugurou seu livro lá, num evento chamado Poeta na Praça. Ele leu alguns poemas e depois se colocou a disposição para conversar com o público. No meio do papo, alguém lhe perguntou: “É possível viver de poesia?”. Ele respondeu: “Não sei, nunca tentei!”.

Imediatamente entendi a lágrima tatuada no rosto do rapaz e a profecia do anjo torto proferida a Carlos Drummond de Andrade.

Continuo escrevendo poemas. Culpa da bílis negra.

Desisti de ser poeta.

Porque as pessoas felizes são felizes
Porque deus criou o homem
© 2018 · Marcelo Ferrari