Tâmara não nasceu tâmara.
Nasceu dor. Nasceu mágoa. Nasceu revolta. Nasceu fruto de um passado que só sabia engolir o choro ou afiar a língua até virar gilete.
Vida de gado. Açougue emocional.Gritos no vácuo. Ninguém vem. Ninguém protege.
Mas Tâmara cansou da maldição.
Olhou para o álbum de fotografias — essa coleção de fantasmas e feridas — e decretou:
— Essa praga termina em mim.
Tâmara foi o Cristo que suas ancestrais rezaram para que viesse salvá-las enquanto apodreciam feito cebola no fundo do armário.
Cada escolha nova que ela planta no lugar da entropia hereditária reescreve o DNA da família.
Tudo para que, um dia, sua filha possa comer tâmaras.