Mantra do meditador

14/04/2003 by na categoria Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Entrei no nariz. Virei nariz. Eu não tinha pé, nem orelha, nem boca. Eu era só nariz. Doendo. Latejando. Ao invés da dor diminuir, aumentou, insuportavelmente. 

— Pula dentro!
— Como assim?
— Pula dentro da dor!
— Nemfodendo!
— Quer continuar sofrendo?
— Também não.
— Então pula dentro da dor!

Pior não podia ficar. Decidi seguir o conselho do pensamento suicida. Pulei dentro da dor. Quanto mais eu mergulhava, mais me dissolvia na dor feito pastilha de Cebion na água. Até que me dissolvi completamente e me tornei a própria dor. E a dor desapareceu. Como não havia nada além de dor, não havia sequer dor. Foi aí que entendi:

Quanto mais a dor chega,
mais a dor passa, 
quanto mais a dor passa,
mais eu permaneço, 
quanto mais eu permaneço,
maior é meu triunfo. 

Mano menos
Marília de Dirceu
© 2018 · Marcelo Ferrari