Quando Ringo percebeu que seu coração pulsava feito bumbo de rock, redirecionou todas as suas finanças para comprar discos. Virou um dos frequentadores mais assíduos do sebo do bairro — aquele tipo de lugar onde o pó das prateleiras faz parte da melodia das músicas. De tanto ir ao sebo, acabou arranjando um emprego lá e virando parte do inventário.
Vocação é assim: não chega como salário, vem disfarçada de troco. Ser pago para ouvir música foi o paraíso. Ringo estava sentado no colo da sua vocação. Mas o mundo tem suas próprias urgências, e a ambição — esse animal insaciável — morde até os anjos. Como tantos de nós, Ringo também trocou o que fazia sentido pelo que pagava boletos. Aceitou uma oferta de emprego que prometia o dobro do salário do sebo.
Só que, pasme, o novo emprego não era para vender carros, nem apólices de seguro ou hambúrgueres artesanais. Ringo foi parar, com uma ironia quase didática, atrás do balcão de uma loja de instrumentos musicais.
Certa tarde, em que a loja estava vazia e o relógio parecia bocejar, um vendedor chamado Paul, num gesto de puro tédio, plugou uma guitarra e começou a tocar os primeiros acordes de um rock de Chuck Berry.
Impulsionado pelo instinto, Ringo sentou-se atrás de um kit de bateria e tentou acompanhar a música. E conseguiu! Com uma facilidade assustadora, quase insolente. Brincou com o chimbal, com o bumbo, inventou viradas e preencheu os vazios do tempo com a autoridade de quem nasceu ouvindo metrônomo. As mãos sabiam, os pés sabiam, o corpo inteiro conhecia o ritmo. Tocar bateria não era novidade: era seu idioma nativo.
Quando o último prato parou de vibrar e o silêncio retornou, houve um intervalo de espanto — desses que cabem em uma vida inteira. Paul enunciou o óbvio:
— Ringo, você é baterista!
Quando a vocação chega, ela não bate à porta — arromba. Após ter se escutado tocando bateria pela primeira vez como se fosse a milésima, Ringo entendeu que poderia ganhar dinheiro fazendo qualquer coisa, mas não poderia mais alegar ignorância. Sua vocação estava ali: revelada, escancarada, escorrendo pela testa junto com o suor.
O sinal se fez presente e ficou tatuado feito cicatriz. E cicatrizes, como se sabe, não são feitas para serem devolvidas.