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FRANCISCO FECHOU A CARA

05/03/2021 by in category Prosa with 0 and 0

(Introdução a poesia, por Marcelo Ferrari)

Sou escritor. Meu trabalho é escrever, não é dar aula de literatura. Mas como escrevo e compartilho aqui meus poemas com vocês, cabe sim oferecer uma explicação rápida e técnica sobre gêneros literários.

Produções artísticas podem ser divididas em gêneros. Gêneros artísticos são como o planeta a qual uma obra artística pertence. Na música, por exemplo, alguns gêneros musicais são, pop, rock, samba, mpb, forró, bolero, valsa, tango, blues, etc.

Todo samba tem algo em comum com todos os outros sambas. Esse algo em comum é o que faz com que um samba seja um samba e não um bolero. Todo rock tem algo em comum com todos os outros rocks, todo tango tem algo em comum com todos outros tangos, e assim por diante.

Claro que nem tudo é ferro e fogo, dentro de um gênero tem subgêneros. No caso do rock, por exemplo, tem pop rock, samba rock, punk rock, heavy metal, etc. Os gêneros artísticos se misturam para formar subgêneros. É uma suruba.

Exatamente o mesmo acontece na literatura. Alguns gêneros literários são fábula, novela, conto, crônica, ensaio, romance, soneto, etc. Os gêneros literários também se misturam para formar subgêneros. Também é uma suruba. Mas na literatura tem uma divisão rígida e dual, tipo água e gelo, que é a divisão entre prosa e poesia.

Todos os textos literários podem ser divididos nesses dois gêneros: prosa e poesia.

A maioria esmagadora dos textos publicados no mundo são textos de prosa. Textos que contam histórias são prosa. Textos que explicam coisas, são prosa. Esse texto aqui é prosa. Quase tudo que você leu, lê e lerá na vida, é prosa. E se é prosa, não é poesia. O que leva a pergunta: o que é poesia?

Arte não é ciência, então, não existe uma definição exata para distinguir poesia de prosa assim como existe para distinguir água de gelo. Mas dá para destacar algumas distinções.

A principal distinção é o uso de metáforas. Metáfora é quando você diz uma coisa para dizer outra. Por exemplo: “Francisco fechou a cara”. Não tem como fechar a cara, é ilógico. Mas tem uma lógica analógica. Francisco fechou a cara, é um jeito analógico de dizer que Francisco ficou chateado.

Você pode questionar: “Mas por que o escritor já não diz logo que Francisco ficou chateado?”. A resposta é: porque daí não é poesia, é prosa.

Se você considerar que um texto, grande ou pequeno, é um escritor convidando você para brincar, prosa e poesia são duas brincadeiras diferentes. Prosa é convite para brincar de leitura lógica, poesia é convite para brincar de leitura analógica.

Brincar com a lógica através do pensamento analógico, é o grande prazer da poesia, tanto para quem escreve como para quem lê. Grandes poetas são escritores super competentes na produção de pensamentos analógicos, capazes de dizer com uma metáfora coisas que todos sentimos ou pensamos, mas não conseguimos dizer nem com mil prosas.

Por exemplo, como você explicaria o sentimento que chamamos de “saudade”? Eu sinto saudade, você sente, todos sentimos. Como você descreveria saudade em palavras? Um famoso poeta brasileiro, Chico Buarque, descreve saudade assim: “Saudade é o revés do parto, saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Sensacional, não é? Eis o poder da poesia.

Claro que a poesia pode ter outras características formais, como o ritmo e a rima. Mas o poder da poesia está mesmo no poder das metáforas. O que explica o motivo da poesia ter tão poucos leitores e apreciadores.

É muito gostoso brincar de pensamento analógico, mas não é uma brincadeira popular e recorrente. A maioria das pessoas, na maioria do tempo, executam apenas e somente o pensamento lógico. Por conta disso, ler poesia fica difícil e chato. O prazer da poesia não acontece porque o pensamento analógico não acontece.

O que nos leva ao fim desse texto e a explicação lógica de tê-lo escrito.

Quando publicar poemas aqui (vou publicar muitos) lembre-se que é um convite para brincar de pensamento analógico. Para aceitar o convite, desligue o pensamento lógico e entre na brincadeira das metáforas. Quanto mais fizer isso, mais uma forma analógica de pensar irá acontecer em você e mais você sentirá prazer com isso.

Boas leituras!

© 2020 · Marcelo Ferrari