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Felicidade é saudade

19/12/2019 by na categoria Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Assisti o documentário Dia Voa por sugestão do youtube. Mostra a gravação do disco homônimo do Chico Buarque. Tem várias entrevistas com o compositor, mas também mostra os músicos ensaiando, conversando, criando arranjos e gravando as músicas. No final do documentário, quando só faltava colocar a cereja em cima do bolo, o contrabaixista foi ouvir as músicas prontas e ficou melancólico. A audição das músicas fez ele viajar no tempo e lembrar dos dias de ensaio numa salinha apertada com vista para orla do Rio de Janeiro. Ele queria estar lá novamente, naquela cena, naquela salinha apertada, naquele passado em que era feliz e não sabia.

“Come chocolates, pequena. Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho, deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.” Fernando Pessoa sabia: felicidade é saudade. Crianças estão ocupadas demais vivendo a história da qual terão saudades, não sobra tempo para pensar em felicidade, logo, não percebem que estão sendo felizes e por isso são. Felicidade presente passa despercebida, felicidade sabida é pensada, lembrada, é saudade.

O contrabaixista do Chico Buarque, saboreou o café sem perceber que estava bebendo felicidade, conversou com os amigos sem perceber que estava conversando com a felicidade, esfregou os dedos pelas cordas ásperas do contrabaixo sem perceber que estava esfregando a felicidade, riu da risada fácil e constante do Chico Buarque sem perceber que estava rindo de felicidade, apreciou a vista da orla carioca sem perceber que era uma janela para felicidade. Viveu um documentário de felicidades até que a felicidade virou documento, daí ficou com saudade e descobriu que foi feliz sem saber.

A palavra saudade é famosa por ser brasileira. O google acabou de desmentir esse mito para mim. Descobri que vem do latim. Mas não tem tradução apropriada em inglês, por exemplo. Quando fiz intercâmbio para os Estados Unidos me ensinaram a palavra “homesick”. Traduzindo ao pé da letra, significa doente de casa. É uma boa tentativa, mas não é saudade. Só se aplica a um tipo de saudade. Chico Buarque tentou explicar, dizendo: “Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. Metáfora poderosa, mas também não encerra o assunto. João Gilberto, de saco cheio dessa conversa, implorou “Chega de saudade!”. O efeito foi contrário. Até minha definição de saudade é falha. A palavra saudade é do tipo de palavra que ninguém tem a palavra final.

Vou completar 50 anos em breve. Tempo voa. Me sinto cheio de vida. Talvez por isso comecei a pensar na morte. Penso e sinto saudade de tudo que vivi, inclusive das partes ruins. Agora vejo que havia certa felicidade inclusive na infelicidade. Impressionante constatação. Marcel Proust, escritor francês, deve ter chegado à mesma constatação. Ele transcreveu toda sua vida em saudosa e minuciosa retrospectiva. O nome de sua obra mais famosa não deixa dúvidas disso: Memórias de um tempo perdido.

Quando morrer espero que alguém tenha saudade de mim. Sei que não vai me adiantar tal saudade, uma vez que estarei impossibilitado de voltar para matar a saudade, nunca ninguém voltou, mas é sinal de que fui uma janela de felicidade na vida de alguém. Morrerei feliz.

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© 2020 · Marcelo Ferrari