Sento para cagar.
Pensei em dizer “número dois”— mais higiênico. Desisti. Não sou tão duchinha.
E vamos combinar. Quem faz “número dois”, senta de perna cruzada. Não é meu caso. Eu faço barro. Chapisco a porcelana. Boto o castanho para nadar. Parei. O resto você imagina por similaridade. Afinal, você também caga. Ou não?
Sento e, na sequência, pego o objeto que se tornou mais indispensável num banheiro do século XXI do que o papel higiênico: o celular.
Começo a rolar o feed.
Cagar é bom, cagar é bom demais. Sem pressa, então. Faça uma pausa na imaginação. Pare de me ver de cócoras e visualize um saco vermelho.
Não esse. O de Doritos.
Outro dia, nesse mesmo trono, assisti um vídeo explicando a fórmula do Doritos. Dizia que foi maquiavelicamente desenvolvida para criar dependência no consumidor.
Não duvido. Funciona comigo. Mas pense: Doritos é um saco fechado com no máximo 180 tortilhas. A rede social tem tela infinita. In-fi-ni-ta. O que pode ser mais viciante?
Entro no Instagram para cuidar da vida duzotro.
De repente, estou assistindo tutorial de lasanha de beringela, aprendendo táticas de guerrilha urbana com um eremita lituano que mora numa caverna de sal, unboxing de betoneira. E, feito peregrino diante da esfinge, me perguntando se os antigos egípcios tinham Wi-Fi.
— Como caralhas vim parar aqui? — murmuro.
O algoritmo — mestre da associação livre — concluiu que admiradores de lasanha são, por extensão lógica, entusiastas de betoneiras. Óbvio.
O algoritmo é uma IA. Eu sou uma AI — Alma Ingênua.
É mais eficiente que terapeuta. O terapeuta espera que eu fale. O algoritmo antecipa a solução. E não oferece apenas uma opção, mas o catálogo inteiro da shoppe.
Certa vez assisti um vídeo sobre espinhas. No dia seguinte meu feed estava mais lotado de cravos que rosto de adolescente punheteiro.
Sei que não preciso aprender trombone. Sei que não preciso ver crianças saindo da anestesia perguntando se aquilo é vida real. Sei de tudo isso — e rolo o feed assim mesmo.
O algoritmo insiste com a paciência de um tio repetindo a piada do pavê. É uma porção de Doritos num saco sem fundo.
Mentira. O FDP não me dá nada. Só me chupa. É um buraco negro virtual sugando minha atenção através de um canudinho digital. Não quer minha felicidade. Quer meu polegar bolinando a tela para manter o capitalismo ereto.
Já terminei de cagar faz meia hora. Não me levantei porque estou assistindo uma time-lapse de gelo derretendo com trilha épica.
Dou descarga e saio do banheiro.
85% do gelo já está derretido. Só faltam 15.
Esqueço de baixar a tampa da privada.