O filme parecia um blues tocado por um pianista bêbado no funeral da mãe. Se chamava “Cria cuervos”. Se você já assistiu, sabe que é atípico expor uma criança a tal conteúdo tétrico. Não sei onde minha vizinha estava com a cabeça para me levar com seu filho aquela sessão de cinema.
Eu nunca havia experimentado uma crise existencial, mas nesse dia, assistindo o filme, experimentei, mesmo sem saber que estava experimentando. A protagonista do filme, uma menina da minha idade, não sabia usar as pálpebras para chorar, então, colocava a vitrola para chorar por ela. A música era sempre a mesma, com batida animada de circo, mas que ao percorrer o caminho até o coração, se transformava em um tango lento e denso.
Eu era moleque de rua, cavaleiro do Rei Arthur, matador de formigas, filho do sal e do sol. Aquele sentimento uterino não era bem vindo no meu corpo de batalha. Mas para o meu espanto, me cativou. Senti vontade de me encolher na cadeira do cinema e chorar igual a menina na tela.
Passado três dias, a mesma vizinha me deu um disco com a música do filme. Era um compacto de vinil. Coloquei o disco para rodar. Ao ouvir o sotaque espanhol e os metais estridentes, voltei ao jardim da melancolia.
Feito um viciado, passei a injetar aquela tristeza através da agulha da vitrola. Eu era feliz, não tinha motivo para tristeza, era apenas vontade de experimentar um sentimento de poesia. Tanto que, passado algum tempo, virei o disco e voltei para a corte do Rei Arthur.