Na primeira vez que fui participar do racha, Chico me pediu para pegar uma tampinha dentro de um saco de pano. Sacou que tipo de cara é o Chico? Chico é do tipo que joga futebol de tampinha e não futebol de panela. Nem tinha visto o Chico jogar ainda e ele já tinha feito um gol no meu conceito.
“O que você faz?”, Chico me perguntou. Minha resposta sincera é incompreensível: “eu vivo”. Afinal, o que mais tem para fazer na vida? Mas não ignoro os protocolos sociais, sabia que ele se referia a profissão. O problema é que não tenho uma. Não uma que sirva para responder de bate pronto. Improvisei: “Sou escritor”. E foi assim que Chico, rotineiramente, começou a fazer uma brincadeira comigo após cada um dos seus gols: “Ae escritor, coloca esse gol no seu livro lá!”.
Chico dribla e chuta muito bem. Aliás, seu jeito de chutar foi o que me inspirou a escrever essa crônica. Chico chuta de bico. Não qualquer bico. Bico no canto. Quase sempre raspando a trave. Pontaria de franco atirador.
Outro dia comentaram que esse é o segredo dele. Para mim, não é segredo, é explícito. Chico não é peito de pé, nem peito de peru, é arroz com dedão. Chico é gol de bico. Sem chute de bico o Chico fica chique e descaracteriza o cara.
Pronto, falei! Espero ter colocado no livro lá metade dos gols que o Chico já fez e me pediu para escrever. Espero também ter colaborado para deixar maiúscula uma habilidade considerada minúscula: o chute de bico.