Podemos ser pés no chão
ao invés de reis da barriga
Podemos decretar a lei de Nash
ao invés da lei do Gerson
Podemos ser transparentes
ao invés de sorrir amarelo
Podemos nos oferecer em banquete
ao invés de ficar de olho
no feijão do vizinho
Podemos usar o dinheiro
ao invés de sermos usados por ele
Podemos usar o pinto
ao invés de sermos usados por ele
Podemos olhar menos
para bunda da Juliana Paes
menos para o nariz do Michael Jackson
e mais para o que está na cara
Podemos dar calote na batata quente
no carnê do olho por olho
dente por dente
Podemos acender velas para o algodão doce
para as cartas de amor
e pés de jabuticaba
Podemos marcar reuniões (intermináveis)
com os livros de poesia
arquivos de mp3
e passos de gafieira
Podemos aprender a multiplicar sinceridades
subtrair medos
e somar intenções
Podemos desenvolver a tecnologia
do ombro amigo
o software da compreensão
(com cedilha)
e o livredificador
Podemos construir pontes de vista
túneis que atravessem diferenças
e casas de Vinícius de Moraes
Podemos inventar a cura para a mentira
a pílula do dia sem-guilt
e o anticondicional
Mas escolhemos cagar na retranca
dia após dia
reclamando do cheiro
e colocando a culpa
no ventilador