Nenhum jogador no mundo, de nenhuma seleção, entra em campo com a mesma obrigação que entra um jogador brasileiro: vencer e convencer.
Isso mesmo. Não basta vencer. Vencer é o mínimo. Precisa convencer também.
Convencer quem?
De acordo com a estimativa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, com data de referência de 1º de julho de 2025, convencer os 213.421.037 técnicos de futebol que habitam o país.
Existe uma máxima na filosofia que exalta o benefício de ser sucessor dos grandes. "Se vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes". Essa frase foi popularizada por Newton, mas a ideia é mais antiga. Remonta ao filósofo Bernardo de Chartres, do século XII: "Somos como anões sobre os ombros de gigantes, podemos ver mais e mais longe do que eles, não por termos visão mais aguçada ou maior estatura, mas porque somos elevados por sua grandeza."
Essa lógica magnífica se inverte e se torna ainda mais cruel no futebol. Cada jogador da seleção brasileira carrega uma centena de gigantes sobre os ombros.
Os gigantes do passado futebolístico brasileiro elevam a moral dos jogadores, mas também os afundam na obrigação de manter essa moral erguida. Colocam-nos duzentos metros à frente da linha de largada, mas são bolas de chumbo amarradas nos pés. Concedem-lhes crédito, mas cobram a maior taxa de juros do mercado.
Em outras palavras: o peso de vestir a amarelinha com cinco estrelas é colossal. Cada estrela pesa uma tonelada de tradição. Atrás de cada uma tem uma história de mil capítulos, contando não apenas a história do futebol mundial, mas a história de um povo que se mistura com a bola assim como a história do mar se mistura com o sal.
Não é só pelos vinte centavos. É pelo tostão.
Tá entendendo? Ainda não? Então preste atenção. Mesmo sob a força do racismo, do elitismo, do eurocentrismo e do capitalismo, o rei brasileiro é preto.
Entendeu agora?
A camisa da seleção brasileira não é feita de fios de algodão, é uma costura de décadas de tradição e orgulho de ter nascido no país do futebol.
A seleção da França, favorita para 2026, tem um Mbappé se tornando um semideus. A seleção brasileira tem um panteão inteiro no Olimpo.
Quando a seleção da França entra em campo, o jogo é 11 contra 11. Quando a seleção brasileira entra em campo, o jogo é 11 contra esse panteão.
Quando Mbappé joga, ele só precisa ser melhor que Zidane. Quando Neymar joga, ele precisa ser melhor que Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Ronaldo e Ronaldinho.
Cristiano Ronaldo dribla olhando para frente. Viny olha para frente e para o retrovisor.
Haaland joga para um estádio lotado de pessoas, Endrick joga para um estádio lotado de pessoas e fantasmas.
As cinco estrelas bordadas acima do escudo da seleção brasileira não são estrelas, são lembretes que dizem para todos aqueles que vestem a camisa amarela: nada além do que essas cinco estrelas representam será tolerado.
São estrelas bordadas no peito, mas carregadas nas costas. Não facilitam. Fazem com que seja cinco vezes mais difícil jogar pelo Brasil do que por qualquer outro país.
O problema do futebol brasileiro não é falta de sol, é excesso de sombra. O Brasil tem a sombra mais comprida do futebol mundial. Se chama Edson Arantes do Nascimento.
Por isso, a culpa é do Pelé.
Para ganhar o hexa, será preciso surgir uma geração de jogadores seis vezes mais fortes do que as cinco gerações anteriores representadas em cada estrela.
Jogadores que, além de driblar como Pelé e Garrincha, sejam capazes de driblar também o fardo de serem sucessores de Pelé e Garrincha. Jogadores que, além de terem a classe de Sócrates e Falcão, sejam capazes de manter a mesma classe fora de campo.
Isso não será fácil. Ainda mais em um mundo onde o futebol deixou de ser futebol e virou moneyball. Onde o campo deixou de ser cal sobre grama e se tornou vitrine de shopping center. Onde o movimento dos pés foi substituído pelo dos dedos nas Bets. Enfim, onde, além dos adversários uniformizados, há também os sem uniforme.
Será difícil, mas espero viver para assistir essa virada. Será lindo. Não só para o torcedor brasileiro, mas para todos os amantes do futebol.