Xixi com tinta

04/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , , with 0 and 0

— É hoje? — eu perguntava todos os dias ao acordar.

Uma vez a cada sete dias a cabeça balançava para cima e para baixo. Para mim, além de resposta afirmativa, era dia do suquinho. Só de pensar, meu estômago lambia os beiços. Logo me voluntariava a carregar as sacolas para minha mãe. Uma vez na feira, eu conversava telepaticamente com o líquido dentro da caixa de isopor, lambendo-o com a língua da imaginação. Quando finalmente passava diante da barraca do suquinho, apontava para caixa e salivava:

— Mãeinhê! Compra?
— Credo, filho! Isso aí é xixi com tinta! — retrucava a mãeinhê.

Podia ser veneno. Meu sonho era sentir aquele xixi gelado deslizando goela abaixo.

Mas sobre a radiação seca do asfalto, a bruxa transformava o suquinho em caldo de cana. O suborno verde até que não era ruim, mas, além da cor fosca, vinha num copo sem graça e não dentro de foguetes, carros, telefones celulares, como o suquinho. Eu engolia o caldo ocre resignado.

O tempo atropelou minhas lombrigas e deixou apenas o gosto da frustração e esta história que, certo dia, contei para um amigo. E ainda bem que contei, pois por coincidência, milagre ou misericórdia divina, não é que meu amigo encontrou o tal suquinho numa mercearia.

Ele comprou um roxo, em formato de carro e foi até em casa no mesmo dia.

Era um Fusca. Ainda estava gelado quando me entregou. Meus olhos ficaram mais úmidos do que minhas mãos. Numa espécie de terapia de vida passadas, me sentei no chão e comecei a morder o pára-choque do suco. Quando o plástico se rompeu, espremi todo o líquido goela abaixo, até terminar a catarse.

— E aí, gostou? — perguntou meu amigo.
— Parece xixi com tinta — respondi satisfeito.

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Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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