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Violão de natal

05/04/2003 by na categoria Contos tagged as , , , , with 0 and 0

O menino está sozinho no quarto.

— Ganhei um violão de natal
mas tocar ele não quis
por isto me desfiz
guardando-o no armário.

Agora ele está solitário
e eu estou mudo.
Entre nos há um armário
ou melhor, um escudo.

Já tem um mês acabado
e a história continua se desenrolando
ele, lá dentro, calado,
eu aqui fora, esperando.

Quem passa
ouve só um zumbido:
eu chorando
em frente ao armário embutido.

Conclusão,
dois violões na historia:
um que não saí do armário
outro que não sai da memória.

Meus pensamentos?
Turbilhões numa partida de xadrez.
Minhas opções?
Violão, porta e talvez.

Dar o braço a torcer?
Nem ele nem eu!
Ter esperanças ou crer?
Nunca, sou ateu

até que ele me prove
o contrário.
Não caio nesse conto
do vigário.


Muitos dias depois…

— Feliz é o paletó branco
que tem em seu aposento
um instrumento
e um amigo franco.

Infeliz sou eu, aqui fora
que tenho
cada hora
queimando-me como lenho.

Mas porque espero?
Não posso dizer que não quero!
Sinceridade!
Até que tenho vontade.

Mas para agir
é preciso além de vontade
sentir
de verdade.


O menino dorme e acorda dentro do armário.

Acho que errei, lamento
dei o passo maior do que a perna.
Acho também esqueci a lanterna
e o juramento.

Parece que dormi numa gaveta
estou torto como uma camiseta
dobrada varias vezes
guardada por meses.

Será que as pernas
tem vida independente
e andam palermas
sem perguntarem para gente?

Como poderia alguém
deitar em leito diário
e acordar muito além
dentro do armário?

Cada noite tem seu mistério
e o medo encontra seu cemitério
diante da necessidade
e da verdade.

Sei bem como vim parar aqui
tive um aliado
a noite foi meu trampolim
para o outro lado.


O menino começa a caminhar pelo armário.

Tem alguém em casa?
Procuro por um instrumento!
Ele só tem uma asa
quer dizer, um embraçamento!

Tem o corpo assim, flamingo,
igual uma pêra
dessas que a gente compra na feira
de domingo!

A boca fica na barriga
embora fale pelos cotovelos!
Alguém, me diga,
pode vê-lo?

Já que ninguém responde
seguirei este varão,
quem sabe ele é o bonde
que me levará ao violão.


O menino encontra alguém no caminho.

Olá cabide,
como tem passado?
– Muito bem,
obrigado,

mas quem passa
é o ferro de passar,
eu, por outro lado,
fico pendurado no ar.

Cabide, me diga,
porque essa boca gigante,
parece um elefante
comparado com uma formiga?

– Minha boca é grande,
eu admito,
mas em boca fechada
não entra mosquito

e na minha entra de tudo
desde calca de linho
até vestido
de veludo.

Sabe, Cabide,
o que me divide,
a razão de meu tormento,
é o instrumento

de seis veias musicais
que procuro,
mas nesse escuro,
talvez não encontre jamais.

– Procure se acalmar,
basta seguir o varão
não tem como errar
a direção.

Muito obrigado!
– De nada!
Mas cuidado
psra não sair da estrada.


O menino sente um cheiro familiar.

Reconheço este cheiro
a distancia de um alqueire!
– Seu pé também não é flor
que se cheire!

O que você disse. Não é flor…
– Disse que estou
com o mesmo odor
do pé de quem me usou.

Você e minha meia, não é?
Mas é claro!
Posso sentir pelo faro
que tem o mesmo cheiro do meu pé.

Cara meia, desculpe desgosto tamanho,
mas me separei do violão
e desde então
nunca mais tomei banho.

Prometo lavá-la outra vez
assim que resolver esta questão.
– Para quem já ficou um mês,
o que é um dia a mais sem sabão?

Já se foi meia jornada,
mais meia e você fará o par,
de mim, não esqueceras por nada
pois te seguirei pelo ar.


O menino segue viagem, de repente…

Ai, essa não, acabou o varão!
O que faço agora?
Chega, vou sair para fora
sem o violão!

– Siga o ponto
luminoso!
Quem fala assim
tão carinhoso?

Sou Zé, o kimono moderno
de um samurai.
Ah, já sei, você é o terno
de meu pai.

Mas você aqui, no meu armário?
Me desculpe o vocabulário
e o queixume,
mas aquilo não é um vagalume?

– Você tem todo o direito
de indagar
Estou aqui porque
tinha que estar.

Quanto a luz, chame-a do que quiser
Alguns chamam Estrela de Nazaré,
outros dizem Sol.
Eu prefiro chamá-la de fé.

Mas, Zé,
como seguir a Fé
sem me perder por caminhos
sem placas ou sinais?


A pergunta fica no ar. O menino continua caminhando.

Por aqui me parece que não!
Talvez por aqui.
Ou senão…
Por ali…

Acho que estou mais perdido
que cego
sem ouvido
Socooooorro!!!

– Para que gritar
se de nada adianta
antes de acabar seu pranto
secará sua garganta.

Pelo tom do conselho
diria, sem medo de errar…
– Sou eu, Alencar,
Seu espelho!

Alencar, meu irmão,
estou tentando seguir meu coração
mas tenho medo
e acabo seguindo o dedo,

o rei do labirinto,
e toda vez que sinto
que estou chegando no local desejado
ele muda de lado.

– Mas que afoiteza:
errar faz parte,
veja a natureza
por contraparte

não pode falhar
um só dia do ano.
Errar
é humano.

Mas, Alencar,
quanto mais tenho
de continuar
errando

pois isso, sei bem,
é só o que tenho feito.
Será que não tem
outro jeito?

Além de tudo,
sinto-me cansado,
estou cabeludo
e barbado.

– Deite-se neste chão
feito de abandono
e espere que o sono
estenda-lhe a mão.

Alencar,
será que em sua memória
não tem uma história
para me contar

– Sim, existe,
mas é uma história triste.
Tudo bem, olharei a tristeza
pelo avesso.


CAPÍTULO | 09

Alencar começa a contar uma história.

– Era uma vez Chico,
um pobre homem rico
de tudo tinha a vontade,
menos felicidade.

O pobre Chico cometeu
um só erro
e como Romeu
provocou o próprio enterro.

Chico trocou o secundário
pelo principal
trocou a cópia
pelo original

jogou as pernas no terreno
e colocou no lugar uma muleta
preferiu o veneno
ao amor de Julieta.

Chico fez como todo aquele
que nadou
no mesmo lodo
que ele,

segui as cegas
como um cavalo
foi piegas
e vassalo.

Amou sem conhecer o amor,
viveu, mas não viveu,
raiou apenas para se por
no breu.

Quando olhou sua ampulheta
e viu o ultimo grão caindo do cavalo
largou a muleta
e correu apanhá-lo.

Agarrando-o, deixou a mão bem fechada,
mas a porção de granada
escorreu entre os dedos de Chico
e como um tico de nada

caiu sobre o conto
deixando ali um sinal,
um ponto
final.


O menino adormece e ao acordar…

Alencar!
Que sonho bom!
Haviam anjos e cornetas
estrelas e cometas

num céu azul claro
onde um raro
violão de doze cordas
e borda

de sol dourado
tocava bem afinado
a inspirada melodia
de um novo dia.

Antes de me levantar
deste chão
quero me indagar
sobre o violão.

O que nele me interessa?
Seria apenas
mais uma peça
na minha decoração?

As doze cordas me deram a resposta!
Quando entrei neste armário
podia até ser
mas agora posso ver

que o violão não é um bem
ele está aquém
disto:
o violão é um compromisso.

O violão era meu desejo,
mas agora vejo
que foi apenas um meio
e creio

que essa viagem, então,
foi como ir ao quintal
e cavucar o chão
esquecido.

Descobri não só um,
mas muitos violões
todos escondidos
em iguais condições.

Por isso, agora,
sem pressa
com a mão na brida,
seguirei por essa avenida

que sempre começa
como um fim,
mas regressa
tim-tim por tim-tim,

para enfim,
tornar-se um meio
dentro
de mim.

Vinte tanto anos
Vitrola
© 2018 · Marcelo Ferrari