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Teste de gravidez

07/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , with 0 and 0

Joana não conseguia desembaralhar o novelo de vozes que ecoavam em sua cabeça. Me acusava de tudo.

— Calma! Vamos conversar! — eu sugeri.
— Será que você não percebe que sua calma me irrita!

Se minha calma irritava, paciência. Eu não podia fazer nada. No entanto, a situação não era tão simples. Havia um terceiro elemento envolvido na história. Tentei dialogar, mas Joana simplesmente soltou o terceiro elemento pela janela do décimo andar. Corri até a janela, mas só deu tempo de ver o violão se espatifando no chão, feito ovo cru. Quando voltei a cabeça, Joana estava espremida no canto do quarto, chorando.

— Você só disse “eu te amo” uma vez — ela protestou.

Era verdade. Achava vulgar demais ficar repetindo o bordão a cada intervalo, como nas telenovelas. Pensava que se o simples fato de respeitá-la e tratá-la com carinho não dissesse por mim, não seria minha boca que diria.

— Por que estamos brigando? — perguntei.

Pra uma mulher, sentir é fácil, mas explicar o que está sentindo é outra história. Joana fez o melhor que pôde. Voltou a chorar. As lágrimas revelavam uma boa parte da história: ela estava confusa. Mas não me explicava o porquê.

— Fala comigo, Joana!

Ela queria falar, mas tinha esquecido as palavras. Quanto mais tentava, mais sua língua desaparecia. Então, entre soluços, deixou escapar duma vez:

— Achoquestougrávida!

Fiquei sem ação. Joana sugeriu:

— Vamos fazermos um teste?

Foi então que descobri que Joana já tinha tudo planejado. Tirou uma embalagem de dentro da bolsa e me deu. Era um aparelho pra teste de gravidez. Parecia uma caneta. Li as instruções. Era tudo bem simples. Bastava molhar a ponta da caneta na urina e depois juntá-la à tampa. Passados quatro minutos, se o mostrador estivesse vermelho, era gravidez; se estivesse branco, ufa!

— Está escrito aqui pra aguardar um dia de atraso. Você está atrasada?
— Era pra ser hoje!
— Mas hoje ainda não acabou!

Dormi tranqüilo, mas Joana girou como os ponteiros. Cinco da manhã, me cutucou na cama. Levantamos e fomos ao banheiro. Joana sentou-se no vaso e molhou o bico do aparelho na urina. Juntei as partes e as coloquei sobre a pia.

— O que acha do nome “Maria”? — disse Joana, apontando pro mostrador vermelho.
— Maria das Fraldas! Maria das Mamadeiras! Maria das Noites sem Dormir! Maria dos Gastos! Maria do Socooooorro!

Olhei no relógio. Só haviam passado dois minutos. A bula havia enfatizado quatro. Peguei o aparelhinho na mão, e o vermelho foi ficando rosa-choque, depois rosinha, depois bege, palha… Quando chegou no branco, voltei à minha cor normal.

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