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Terceira carta

07/04/2003 by in category Contos tagged as , , with 0 and 0

— Homem é tudo igual! — disse Joana.

Rita, sua amiga de pensão, aprendiz de cartomante, e que já havia passado por situação parecida, tentou consolar a amiga. Pegou um baralho que havia sobre a mesa e virou um valete de copas.

— Vejo uma doença no coração! — disse Rita.

Não precisava nem falar. Desde o sumiço do namorado, um fantasma perseguia Joana, um azedo lhe maltratava o coração. Rita tirou uma segunda carta. Era uma dama de paus.

— Vejo um suicídio! — disse Rita.

Joana sentiu uma faca entrando no peito. Aquelas semanas tinham se transformado mesmo em um suicídio. Joana estava viva por fora, mas morria por dentro. Rita puxou uma terceira carta. Abriu espaço entre as duas anteriores e colocou-a bem no meio, fechada, velada.

— A vida é uma porta, — disse Rita jogando uma brilhantina dourada sobre Joana — então, quem irá abrir essa terceira carta não sou eu, é ela.

— Ela quem, Rita? A morte! — disse Joana, que de tão assutada, saiu correndo do quarto de Rita e foi embora para sala, sem sequer ver a terceira carta.

Alguns dias depois, Joana voltou no quarto de Rita e deu de cara com uma vitrola. Pegou um disco ao acaso, deitou-o sobre a cama giratória e soltou a agulha para dançar sobre o vinil. Ficou esperando o desabrochar do som como quem aguarda o nascer do sol. Naqueles breves segundos de ruído, enquanto a agulha deslizava sobre o pátio negro, prestes a alcançar o universo musical, Joana fechou os olhos e vagou no breu.

— Eu te amo — disse a primeira estrofe da música.

Sobre a penteadeira, entre o valete de copas e a dama de paus, um curinga. 

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