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Solidão e Muvuca

08/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Reclamamos da poluição, da enchente, do trânsito, da violência, mas não saímos da muvuca. Gostamos mesmo é de bafafá. A gente empurra, dá cotovelada, manda o irmão tomar no cu, mas nem sonha em sair dos bares, filas e favelas da vida compartilhada. Estar no meio da confusão dá uma sensação de que ela depende de nós, de que somos o umbigo do carnaval. Só na muvuca a humanidade faz sentidos.

Eu adoro muvuca. É a diversidade que cria e alimenta o escritor em mim. Sem muvuca eu não teria para onde olhar nem o que contar. Mas adoro solidão também. Às vezes sinto como se a cidade estivesse me sugando por um canudinho do McDonald’s e roubando eu de mim, feito trombadinha.

Em dias assim me tranco no banheiro e toco violão no escuro. Notas longas para ouvir a reverberação do azulejo. Ou senão, escrevo. Nada mais solitário e prazeroso que escrever. Digito algumas centenas de caracteres mudos e o mundo começa a refazer sentido.

Solidão faz a gente se lembrar da verdade. Não me pergunte que verdade. Não teria como lhe dizer. Este tipo de verdade só a solidão sabe explicar, pois só o que está só não tem para quem mentir.

Solidão e muvuca não são duas opções, são duas necessidades. E pior! Excludentes, como online e offline. Por isso entramos no facebook querendo sair e saímos querendo voltar. Por isso nos amamos e nos odiamos. O inferno é o outro. O paraíso também. 

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