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Ser Humano Futebol Esparta

08/04/2003 by na categoria Crônicas, SHFC tagged as , , with 0 and 0

Fui cumprimentar os caras do racha e um deles me perguntou se a cor da minha camisa era por solidariedade ao outubro rosa. Homem é assim mesmo, está sempre pensando em um jeito de dizer que o outro é viado. Aprendemos isso na infância junto com os palavrões e os 10 mandamentos do cidadão espartano. Menino usa azul, menina usa cor de rosa. Não pode errar nem se for daltônico. Certa vez, um rapaz comprou uma chuteira puxada para o rosa e foi enviadado no primeiro dia de uso. Nunca mais usou.

Não sei se foi por causa do outubro rosa, mas na sequência da piada alguém me sugeriu: “Por que você não escreve uma poesia sobre o nosso racha?”. A sugestão ganhou apoio e foi sendo repetida em coro. Coloquei a mochila em cima de uma cadeira e fui fazer alongamento. Começou uma gritaria: “Escreve ai! Escreve ai!”. Fiquei pensando no que eles estariam pensando ao pensarem em poesia.

Lembrei que no meu primeiro ano de participação naquele raxa, perto do natal, época em que até os espartanos ficam emotivos, escrevi um texto e li em voz alta para eles pouco antes de começar o último jogo do ano. Era um texto poético. Usava metáforas. Falava da minha paixão pelo futebol e agradecia todos por terem me aceitado no grupo mesmo sendo um forasteiro. Poesia seria um replay desse dia?

“Se eu escrever vocês leem?”, perguntei. Ouvi prontamente: claro!

O homem é o único bicho que se olha no espelho. Acho que o leitor, embora não perceba, sempre executa a leitura com esse propósito narcisista. O leitor quer se ler. Então, um pedido como “escreve disso ou daquilo”, é na verdade um pedido por “fale de mim, me espelhe, me conte, me crônica, me poesia”.

Poderia escrever muitos parágrafos sobre o racha de sexta feira. Começando pelo paraninfo no grupo de whatsapp, Jordão. Figuraça. Depois Didi, o eterno 21. Ronaldinho bravo. Praum com “n”. Danilo tolerância zero. Pedro reclamando do time de merda. Juninho jogando simultaneamente no ataque e na defesa. Filipe fazendo careta. Tupi na banheira. Rodolfo apitando até o lance que não aconteceu. E claro, Frango, o pop star do raxa, dançando macarena e mandando beijo para torcida invisível. 

Como podem perceber, assunto não falta. Se o racha fosse uma novela, renderia muitos capítulos. Mas se for retratar tudo e todos nessa poesia, que de fato é uma crônica, vou extrapolar todos os limites de um textão. Além do que, a regra espartana é clara: poesia é coisa de viado. Passei dos acréscimos. Vamos ao fim do jogo. 

“Você tem uma semana para escrever a poesia do racha”, me adverte um dos caras, como se fosse meu patrão ou estivesse me pagando pelo serviço. Mal sabia ele que assim que terminei de fazer alongamento o texto já estava escrito.

Shangrilá
Ser Humano Futebol Tácito
© 2018 · Marcelo Ferrari