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Sangue virtual

08/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , , with 0 and 0

Queremos sangue! Nossa gênese é sanguínea. No princípio era o sangue. Caim sangrou Abel. Deus pediu para Abraão sangrar seu filho. Jesus tentou lançar o movimento hippie e foi mais sangrado do que bife. Aliás, até hoje vamos na igreja beber o sangue dele.

Somos criaturas amotinadas com marretas. Não sabemos criar, então, destruímos. Nossa sede de sangue é sede de destruição. Quando o centroavante inventa o drible, o zagueiro esquece a bola, e com sangue nos olhos, dispara um chute na canela. O meião branco fica vermelho. Destruição executada.

Amor rima com dor. Amamos o sangue. Claro que não podemos admitir nossa tara em público. Muito menos saciá-la. Leis racionais e morais estão sempre prontas para sangrar os infratores. O que fazer? Sangue virtual. Ao invés de hemácias e glóbulos brancos, bytes e pixels. Não tem a mesma sinestesia, mas facilita demais a vida, ou melhor, a morte. Ninguém vai preso e podemos sangrar uns aos outros via internet.

Sangue 24 horas online. Se há sangue rolando em alguma parte do mundo, seja sangue físico ou psicológico, podemos vê-lo, ouvi-lo, curti-lo e espalhá-lo pela rede social. 

Eu sei! Desconsiderei o lado compassivo da convivência humana. 

Se existe mesmo, me perdoe.

Solidão e Muvuca
Só preciso de quatro
© 2017 · Marcelo Ferrari