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Sanfoneiro

08/04/2003 by in category Crônicas tagged as , with 0 and 0

Um rebanho se afunila no único caixa do banco. Calejado pela rotina, sento no chão. O guarda não diz nada, se pudesse faria o mesmo. Passados alguns minutos alguém resmunga. Como numa cascata de dominós vai contagiando todos os demais.

No chão, olhando o mundo de baixo pra cima, acompanho o balé dos pés, uns batem rápidos, outros devagar, uns no ritmo, outros fora. Amarro minha atenção ali até que chega um sanfoneiro do lado de fora.

Ele é cego. Senta numa caixa de pêssegos, coloca o chapéu na frente e começa a cantar sua geléia geral, do Oiapoque a New York.

Saio do banco, tiro algumas moedas do bolso, mas, quando me aproximo pra ofertar-las, um cego, mais cego que o cego, chuta o chapéu do sanfoneiro e é nota pra todo lado. Corro apanhá-las antes que o vento as furte. Recoloco o chapéu com as notas no lugar e acrescento minhas moedas.

Vou pra banca de revista. Escolho três revistinhas e peço ao jornaleiro que some. Quando ele me diz o preço, conto o dinheiro e percebo que não tenho suficiente. Devolvo uma revistinha e peço que o jornaleiro calculasse o preço. O homem pega meu dinheiro, coloca as três revistas num saco plástico e diz que esta certo. Agradeço e vou pro ponto de ônibus.

Quando chego em casa, somo o preço das três revistas e percebo que o tanto que faltou foi exatamente o tanto de moedas que dei ao sanfoneiro.

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