Sanfoneiro

08/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , with 0 and 0

Um rebanho se afunila no único caixa do banco. Calejado pela rotina, sento no chão. O guarda não diz nada, se pudesse faria o mesmo. Passados alguns minutos alguém resmunga. Como numa cascata de dominós vai contagiando todos os demais.

No chão, olhando o mundo de baixo pra cima, acompanho o balé dos pés, uns batem rápidos, outros devagar, uns no ritmo, outros fora. Amarro minha atenção ali até que chega um sanfoneiro do lado de fora.

Ele é cego. Senta numa caixa de pêssegos, coloca o chapéu na frente e começa a cantar sua geléia geral, do Oiapoque a New York.

Saio do banco, tiro algumas moedas do bolso, mas, quando me aproximo pra ofertar-las, um cego, mais cego que o cego, chuta o chapéu do sanfoneiro e é nota pra todo lado. Corro apanhá-las antes que o vento as furte. Recoloco o chapéu com as notas no lugar e acrescento minhas moedas.

Vou pra banca de revista. Escolho três revistinhas e peço ao jornaleiro que some. Quando ele me diz o preço, conto o dinheiro e percebo que não tenho suficiente. Devolvo uma revistinha e peço que o jornaleiro calculasse o preço. O homem pega meu dinheiro, coloca as três revistas num saco plástico e diz que esta certo. Agradeço e vou pro ponto de ônibus.

Quando chego em casa, somo o preço das três revistas e percebo que o tanto que faltou foi exatamente o tanto de moedas que dei ao sanfoneiro.

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Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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