Quero beijar um homem

10/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Acordei com vontade de beijar um homem. Não saí do armário. É saudades do meu pai. Saudades de brincar de plástico bolha com o lóbulo da sua orelha. Quantas histórias! Vou contar uma que marcou minha alma e seu corpo. Uma que começou com uma carreata de sorveteiros.

Estava sendo inaugurada uma nova loja perto de casa. Saí correndo para participar da distribuição gratuita de sorvetes. Na pressa de enfiar uma dúzia de picolés na boca, me descuidei com o trânsito e acabei com o pé debaixo do pneu de um fusca. Ao invés de atropelar meu pé por inteiro, o motorista parou em cima, depois saiu do carro, pegou meu braço e me puxou para trás, até o pé sair debaixo do pneu. Assim, além do pé quebrado, perdi também o coro de cima do pé. 

No hospital, os médicos decidiram fazer enxerto de pele. Funcionou. Só que o pé estava quebrado, então, teve que engessar também. Eram dois problemas. O enxerto precisava de curativo e o osso precisava de imobilização. A solução foi fazer uma janela no gesso para possibilitar a troca do curativo. 

Nem tratamento dentário sem anestesia doía tanto quanto trocar aquele curativo. Por mais que os enfermeiros fossem jeitosos, por mais pomada que se colocasse no local, a gaze grudava na carne e retirá-la era como arrancar a pele. Eu chorava, berrava, esperneava, mas não tinha jeito. E uma vez por semana a tortura tinha que ser repetida para evitar infecção.

Certa vez, como estávamos viajando, meu pai me levou a uma farmácia para trocar o curativo. Bastou o farmacêutico tirar a tampa do gesso para começar a doer. Chorei e implorei por misericórdia. Prometi estudar, jogar futebol e voltar com a roupa limpa, comer só um bis, etc.

O farmacêutico parou e ficou olhando para o meu pai, esperando sua decisão. Claro que nenhum pai gosta de ver o filho sofrendo, mas tem dores que a gente tem que passar para continuar vivendo. Além do que, dor muito maior viria se aquele enxerto infeccionasse. 

Meu pai balançou a cabeça e deu autorização ao farmacêutico para prosseguir com a troca do curativo. Disse ao meu pai que ele era mal, que era o pior pai do mundo por permitir um filho sentir tanta dor. Meu pai deixou eu xingar e reclamar a vontade. Depois esticou o braço e me disse: “O tanto que doer no pé, você morde no meu braço”.

Sim, meu pai foi grande e exemplar, mas como a dor deixa a gente pequeno e cego, não me convenceu. Então, quanto mais o farmacêutico puxava o gaze, mais doía, e quanto mais doía, mais eu cravava meus dentes de leite no braço do meu pai. Mordia de raiva e vingança. Mordia de filho pródigo.

Acordei com saudades de beijar e morder esse homem.

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AUTOR


Meu nome é Marcelo Ferrari. Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

        

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