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Punheteiro de cinema

11/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Eu faço coisas estranhas. Me orgulhar de fazer coisas estranhas é uma das coisas estranhas que faço. Ontem, por exemplo, saí de casa pra ir ao cinema.

No caminho fui pensando em comprar algo pra mastigar durante a sessão. Meu desejo de botar a língua pra praticar yoga era muito maior do que assistir o filme. Entrei numa loja de conveniência e as cores das embalagens saltaram a vista.

Eu quero! Gritou o desejo. Qual? Perguntou meu bolso, contando as moedas. Eu quero todas, quero bala de goma até entrar em coma. Comprei um saquinho de Disqueti, versão superpobrinha do MM. Era o único milagre que dava pra fazer com aquele orçamento.

Abre logo! Disse o desejo. Calma, depois não vai ter pra comer na hora do filme. Foda-se o filme! Quem quer saber do filme? Nem você quer saber do filme. Abre logo esta porra! Resisti.

O cinema ficava cada vez mais perto. Comprei o ingresso com desconto. O cinema tinha acabado de ser reformado, mas continuava antigo. As luzes da rua atingiam a tela em forma de sombra. Era a caverna de Platão no coração do Itaim-bibi.

Coloca a porra da bala na booooca! Não é bala, é chocolate e o filme ainda não começou. Foda-se o filme! Não quero saber de filme, quero a satisfação que vem sendo adiada desde a Rua João Cachoeira. Tudo bem, só um.

Abri o saquinho, peguei uma bolota e coloquei na boca. O filme começou. Não o filme que fui assistir, mas o que estava programado pra passar na minha cabeça.

O chocolate foi se dissolvendo na boca e junto com o gozo gustativo percebi que estava batendo punheta. O que estava entrando pela língua não era o chocolate. Se fosse, quem tinha que engordar era a língua. O desejo era platonico e a satisfação também.

Desde então tenho que admitir. Eu sou um punheteiro de cinema. Somos todos. Só muda a sala de projeção.

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