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Previsto e posfeito

11/04/2003 by in category Contos tagged as , , , with 0 and 0

Dizem que ver o futuro é privilégio de videntes, cartomantes, estas coisas. Nada disso. Qualquer um é capaz de ver o futuro. Aliás, impossível não vê-lo. Até cachorros veem o futuro. Os que não veem, morrem atropelados.

Tem uma pergunta filosófica que é assim “Por que a galinha atravessou a rua?”. Não sei a resposta. Tenho pena de quem sabe. Mas sei que se a galinha não previsse o futuro, também morria atropelada.

Prever o futuro não é questão de cartomancia, é questão de imaginação. É na imaginação que a coisa acontece antes de acontecer.

Mas enfim, quando ele me fez a pergunta, eu vi o futuro:

Eu diria a verdade. Ele ficaria irritado. A irritação se transformaria em raiva. A raiva se transformaria em desconforto. O desconforto se transformaria em vontade de matar o incomodador (eu). Matar ele não podia. Era muito drástico e ele acabaria indo pra cadeia. Então, ele pensaria numa estratégia invisível e socialmente aceita de vingança. A solução seria ele me proibir de usar a coisa. Eu comunicaria ela sobre a proibição imposta por ele. Ela me perguntaria como ele ficou sabendo. Eu responderia a verdade. Ela ficaria irritada. A irritação se transformaria em raiva. A raiva se transformaria em desconforto. O desconforto se transformaria em vontade de matar o incomodador (eu). Matar ela não podia. Era muito drástico e ela acabaria indo pra cadeia. Então, ela pensaria numa estratégia invisível e socialmente aceita de vingança. A solução seria a tortura psicológica, que me levaria a loucura, mas evitaria o óbito.

Mentir era tão fácil. Bastava uma mentirinha e pronto, deceparia numa só enxadada todos os infortúnios que estavam claramente visíveis na bola de cristal. E vieram várias mentiras na minha cabeça. Todas ótimas. Coerentes. Acreditáveis. Irrefutáveis até. Bastava escolher uma. Por que não?

É que tinha um grilo dentro da bola de cristal: “Mentir pra quê?”.

“Você viu o mesmo futuro que eu vi?”, perguntei ao grilo.

“Sim, vi”, ele respondeu.

“Para que falar a verdade?”, perguntei.

“Experimenta para ver”, respondeu o grilo.

Porque estes momentos acontecem bem nestes momentos?

Confesso que a resposta do grilo quebrou minhas pernas. “Experimenta para ver”. A frase ficou ecoando na minha cabeça feito musica sertaneja. Foi surgindo uma vontade insana de experimentar o futuro proibido.

Eu disse a verdade. Ele ficou irritado. A irritação se transformou em raiva. A raiva se transformou em desconforto. O desconforto se transformou em vontade de matar o incomodador (eu). Matar ele não podia. Era muito drástico e ele acabaria indo pra cadeia. Então, ele pensou numa estratégia invisível e socialmente aceita de vingança. A solução foi ele me proibir de usar a coisa. Eu comuniquei ela sobre a proibição imposta por ele. Ela me perguntou como ele ficou sabendo. Eu respondi a verdade. Ela ficou irritada. A irritação se transformou em raiva. A raiva se transformou em desconforto. O desconforto se transformou em vontade de matar o incomodador (eu). Matar ela não podia. Era muito drástico e ela acabaria indo pra cadeia. Então, ela pensou numa estratégia invisível e socialmente aceita de vingança. A solução foi a tortura psicológica, que me levou a loucura, mas evitou o óbito.

Previsto e pósfeito.

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