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Porque desisti de ser poeta

11/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , with 0 and 0

Quando ainda era cria de um anjo reto e engatinhava na lida de escrever poemas, fiz diversas oficinas de literatura na biblioteca circulante, em São Paulo, perto do Mackenzie. Uma delas foi com Carlos Felipe Moisés, poeta e professor da USP. A oficina durou um mês, ou então, usando a sintaxe temporal de Moisés, uns 90 maços de cigarros. Digo isso, porque ele falava eloquentemente e acendia um cigarro no outro. Tic palavra cigarro estrofe rima quebra parágrafo tac. Ampulheta Souza Cruz. O maço esvaziava enquanto o cinzeiro enchia.

Tenho saudosas lembranças desse tempo. Só dava maluco circulando pela circulante, tanto na platéia como no palco. Me lembro, por exemplo, de um rapaz que estava sempre chorando. Dormia chorando e acordava chorando. Ininterruptamente. O cara tinha uma lágrima tatuada na cara. Me lembro de outro que dormia uma noite sim e outra não. Ele acreditava que dormir era um desperdício de tempo para quem, como ele, desejava se tornar um intelectual. Foi na circulante que Fernando Paixão, sem nenhum tipo de exame clínico, sem sequer pedir para que eu dissesse “aaaaaaa” com um palito de sorvete na boca, diagnosticou que minha bílis é negra. Segundo Fernando, poesia é fruto de melancolia e a palavra “melancolia” significa bílis negra. Foi na circulante também que assisti, ao vivo e a cores, o xamã Roberto Piva, mergulhado no Nagual, explicar a lógica de não ter lógica. Vixi! Quem mergulhou no Nagual com essa lembrança toda fui eu. Mas chega de vírgulas, vamos ao ponto. 

Por coincidência, naquele mês da oficina do Moisés, estava sendo publicado seu primeiro livro de poemas, uma coletânea de 20 anos de escritos guardados na gaveta (creio eu). Guardados no freezer ficaria metaforicamente melhor explicado, mas enfim, Moisés fez um evento de lançamento do livro na FNAC de Pinheiros, em São Paulo. Naquela época, a FNAC nem se chamava FNAC, era um nome brasileiro. Me esforcei para lembrar aqui. Procurei no google. Não encontrei. Se nem o google lembra mais, que dirá meu tico e teco. Mas enfim, tinha uma praça com uma mini arquibancada na frente dessa FNAC que não se chamava FNAC. Moisés inaugurou seu livro lá, num evento chamado “Poeta na Praça”. Ele leu alguns poemas e depois se colocou a disposição para conversar. No meio do papo, perguntei: “É possível viver de poesia?”. E o poeta respondeu: “Não sei, nunca tentei”. Imediatamente entendi a lágrima tatuada no rosto do rapaz e a profecia proferida a Carlos Drummond de Andrade no dia do seu nascimento.

Continuo escrevendo poemas. Culpa da bílis negra. Desisti de ser poeta. 

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