Ponto de Ícaro

11/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

As vezes vou até a cozinha, coloco um fio de água na frigideira e acendo o fogo. Faço isso para assistir de camarote o líquido se transformando em vapor. Aguardo com paciência a aparição das microbolhas e recordo as palavras ígneas da professora de ginásio: “Água vira vapor quando chega no ponto de ebulição”.

Hoje sei que o ser humano também entra em ebulição. Chamo esse momento de Ponto de Ícaro. Escolhi esse nome porque Ícaro foi aquele que teve de criar asas para escapar do labirinto. O Ponto de Ícaro também não tarda e nem falha. Só que marcha com botas de lã. Quando menos percebemos, já é, já Ícaro. A pedra vira roda e nunca mais pode voltar para o meio do caminho. A velha ordem foi devorada pela nova possibilidade.

Recentemente vi um Ponto de Ícaro em um documentário sobre skatistas, Dogtown and the Z-boys. Dogtown era o apelido de uma região decadente e abandonada da Califórnia e que acabou servindo de casa para surfistas sem dinheiro (Z-boys). Foi o início da revolução no Olimpo. Vou contar um pouco do que aconteceu antes de chegar no Ponto de Ícaro.

Antes dos Z-boys, surfistas que viraram skatistas, a maioria dos skatistas andavam de skate como nos anos 60, numa mistura de brincadeirinha de circo com saltos de atletismo. Foi quando o skatista, Jay Adams, entrou na cena. O Ícaro do skate foi participar de um campeonato tradicional e fez manobras que deixou o público e os juízes sem entender nada.

Jay era mais do que um participante, era uma nova forma de vida sobre rodas, uma nova forma de ser a mesma coisa, um novo skatista. Os juízes, espantados, não sabiam sequer como julgá-lo. Os outros competidores ficaram putos, mas a platéia ficou extasiada.

Naquele verão, Dogtown passou por uma forte estiagem e todos os cidadãos foram obrigados a esvaziarem suas piscinas. A serpente da gênese foi chamada. Sua missão foi convencer os Z-boys a invadirem os quintais e fazê-los enxergar ondas nas superfícies curvas das piscinas. Nasceu assim o skate vertical. E quando todos já estavam acostumados a deslizar pelas paredes côncavas, Jay Adams recebeu um impulso de Ícaro e começou a subir… subir… subir… Só que a parede da piscina acabou…

E Jay Adams continuou subindo… subindo… subindo…

Talvez seja por isso que Jay Adams acabou se envolvendo com drogas em vez de se envolver com a mídia. Talvez o que Jay tenha visto naquele vôo vertical seja perturbador demais para ele voltar a morar na horizontal. Talvez seja esse êxtase que esteja por trás do visceral mantra “skate or die”. Talvez seja por isso que sentimos dor nas costas e no peito. Asas atrofiadas querem crescer e o coração quer sair do labirinto.

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Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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