Pitoco

11/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , with 0 and 0

Pitoco era um cachorro salsicha. Cachorros salsichas são fáceis de tratar e excelentes sirenes de polícia. Minha avó tinha um bando deles. Morriam uns, nasciam outros. Ela sempre tinha uns quatro deles pela casa. O método de preservação da raça era a pouca-vergonha. O filho transava com a própria mãe, quer dizer, fertilizava a própria mãe e assim por diante. Enfim, mundo cão.

Pitoco era um dos oito filhotes da última ninhada. Ele era o único que ainda morava com os pais. Mas tinha dois irmãos que moravam perto, com a tia, no sítio vizinho, do outro lado do pasto.

Não sei por que a rixa. Talvez porque Pitoco tenha mamado no peito enquanto seus irmãos tiveram que se contentar com ração de fubá. Ou então a tia tinha algum desafeto com a irmã. Seja o que for, o fato é que toda vez que Pitoco resolvia atravessar o pasto e visitar os irmãos, logo era atacado pela tia e pelos ex-companheiros de útero.

Uma vez, durante uma visita, Pitoco foi caminhando com quatro patas e voltou com três. Uma delas foi mastigada pela tia. O reverso também já havia acontecido. Os dois irmãos atravessaram o terreiro e foram escorraçados pelos tios.

Essa introdução é apenas para explicar por que não deixei Pitoco me seguir até o canavial. Estava descendo o pasto e Pitoco trombou no meu calcanhar. Virei para olhar e ele balançou as orelhas. Ameacei chutar sua bunda. Não funcionou. Tentei espantá-lo com um berro. Também não adiantou. Pitoco ia e voltava feito dor de cabeça. Não vendo outro jeito, quebrei um galho de árvore e sapequei seu coro peludo. Pitoco correu um pouco e me olhou triste, sem compreender porque estava sendo chicoteado. Dei a segunda lambada e depois a terceira, até que ele desistiu de me seguir e voltou para casa.

Ao chegar no canavial, confirmei que a tia de Pitoco estava lá, como de costume. Se Pitoco tivesse me seguido a surra seria feia e certa. Não sei se cachorro fica magoado e consegue perdoar, mas não contei essa história para cachorro ler.

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AUTOR


Meu nome é Marcelo Ferrari. Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

        

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