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Pessoa fora do figurino

11/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , with 0 and 0

Pessoa tinha o timbre do Tim Maia, a voz do Tim Maia, o humor do Tim Maia, a barriga do Tim Maia e a veia cheia de ratos do Cazuza.

Nossa amizade era AA, artística e alcoólica.

Certa vez, convidei Pessoa para cantar junto comigo, num show de rock, na banda que participava.

“Sério mesmo! Nunca cantei num palco antes!”, ele exclamou.

Pessoa ficou tão entusiasmado que chegou sóbrio e pontual para três ensaio as 10 da manhã.

Sua voz calibre 12 encaixou feito pinto nas letras embucetadas da banda.

Por três vezes fomos John e Paul.

No dia do show, o sonho acabou. Pessoa estava sóbrio. Eu não.

Branco total radiante. Até que…

“O que foi?”, perguntei para Pessoa.

“Não foi! Você ficou tão bêbado que sequer conseguiu segurar a guitarra”.

“Não teve show?”

“Não!” respondeu Pessoa.

A ressaca física virou moral. Arruinei a primeira vez de um sóbrio.

Por isso sangrei ao ver Pessoa cantando Gonzaguinha num programa de televisão muitos anos depois.

Para caber dentro da tela, Pessoa teve que deixar o Tim Maia e o Cazuza fora do figurino, mas ali dentro estava a mesma pessoa, no seu jeito de dizer o que é amar.

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