Paradoxo da segunda redação

11/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , with 0 and 0

Na época de faculdade, nas provas de redação, primeiro eu fazia minha redação, depois, escrevia uma segunda redação e passava para um amigo. Ele sequer lia o que eu escrevia. Para ele, qualquer baboseira era melhor do que ele mesmo escrevendo. O interesse dele não era pelo texto, era pelo diploma. Ele transcrevia minha redação usando a letra dele e pronto, rumo ao bar.

Quando as redações voltavam corrigidas, para meu espanto, a nota da redação do meu amigo era sempre maior que a minha. Sempre. Isso me intrigava, pois eu escrevia a segunda redação com pressa, sem capricho e quase sem pensar. Então, havia alguém em mim que escrevia melhor do que eu mesmo.

Certo dia, esse amigo, interessado em ser um profissional de destaque e ganhar muito dinheiro, me fez uma pergunta que mudou minha vida: “Como eu faço para ser criativo igual você?”. Foi a faísca que estava faltando para eu entender o paradoxo da segunda redação. Todas as peças se encaixaram. Respondi: “Erre!”.

Minha resposta causou mais espanto em mim do que no meu amigo. Mas finalmente entendi. A primeira redação era a redação certa, escrita para agradar o professor, tirar nota boa e passar de ano. A primeira redação era a redação útil. A segunda redação era a redação errada, escrita por puro prazer de escrever. A segunda redação era a redação inútil. A primeira redação tinha meu nome, mas era de outro. A segunda redação tinha outro nome, mas era minha.

Se essa história acabasse assim, já estaria ótimo, porém, na sequência da minha resposta, meu amigo me fez a pergunta mais criativa do universo.

Ele perguntou: “Como faço para errar?”.

Não respondi. Jamais responderei.

Acho que ele entendeu.

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Espalhe a palavra!

AUTOR


Meu nome é Marcelo Ferrari. Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

        

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