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Paradoxo do discurso do mestre

11/04/2003 by in category Crônicas tagged as , with 0 and 0

Krishnamurti é um pé no saco que fala pelos cotovelos. É um Sócrates versão D.C. Por isto que você, leitor virgem, que acabou de cair na arapucamurti, está devorando páginas e páginas, livros e livros, discursos e discursos do sujeito. Sua motivação é a seguinte: “Se o cara sabe equacionar tão bem a pergunta, logo, sabe respondê-la”.

Saber ele sabe. Mas não se iluda que lhe responderá em forma de resposta. Quanto mais você ler Krishnamurti, mais aumentará sua sensação de estar comendo isopor. Como num filme de Alfred Hitchcock ele também esconde revelando e revela ocultando. Ficar muito puto com isto faz parte da descoberta. Faz você se perguntar: “Será que o cara está me fazendo de bobo?”. Claro que está! Mas por uma causa mais nobre do que seu olhar cortês possa perceber. Krishnamurti quer que você veja que o rei está nu! E pior! Veja que você é o rei!

Krishnamurti é um exemplo de paradoxo do discurso do mestre que aconteceu comigo. Que paradoxo é este? É o fato do discurso do mestre só fazer sentido pro discípulo quando o discípulo não precisa mais do discurso. Ou seja, no momento em que o discípulo mais tenta entender o que o mestre está falando, menos entende. Quando a tempestade passa, quando o discípulo já cumpriu a jornada e não mais precisa de palavras, a compreensão de cada palavra do discurso do mestre se torna clara como água mineral.

No meu caso, muito tempo depois de enterrar Krishnamurti no cemitério dos chatos-de-galocha, um livro dele me pegou no banheiro. Não havia nada menos desagradável pra ler. Nem bula de remédio. Peguei o livro e comecei a leitura. Pro meu espanto, uma lógica incrível pulou dos parágrafos. Estava assistindo o filme de suspense pela segunda vez. O óbvio não era mais invisível. O paradoxo não era mais contraditório. Puft! O mestre desapareceu.

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