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Novo Chico

13/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Certa vez, na sauna do clube, que é um ambiente masculino e adulto, ouvi um cara falando: “Eu faço terapia. É o melhor investimento que uma pessoa pode fazer na vida, entender como funciona por dentro. Mudou minha vida!”. 

Uau! Vem surgindo um novo cabra macho! Pensei.

Trabalho com autoconhecimento. É raro homem que tenha interesse por terapia. A ideia geral é que é coisa de viado.

Só que não! Encarar a crise econômica, o touro, a torcida do Corinthians, é moleza, difícil é encarar a si mesmo. 

A novela Velho Chico ilustrou isso com o personagem Afrânio, representado por Antônio Fagundes. Para enfrentar o mundo, Afrânio decidiu se vestir de Coronel Saruê. Quanto mais se vestia, mais se distanciava de si.

Por fim, Afrânio deixou de ser Afrânio. Só que ninguém aguenta o peso de viver fora de si. Nem Hércules aguentou. Então, dia sim dia também, lá estava o Coronel Saruê fazendo terapia com os espelhos do casarão. 

A novela Velho Chico foi uma grande constelação familiar. Seus personagens eram todos arquetípicos da velha família brasileira. Afrânio representou o velho homem, o Velho Chico.

Afrânio passou a novela inteira ruminando sua opção pelo Saruê. Nada mais terapêutico do que o sofrimento.

A novela vai acabar amanhã. Com um pouco de imaginação, ousadia e apreço pela prática do autoconhecimento, prevejo que na ultima cena, Afrânio estará numa roda de homens no bar do Chico Criatura e dirá: “Eu faço terapia. É o melhor investimento que uma pessoa pode fazer na vida, entender como funciona por dentro. Mudou minha vida!”.

Piui! Toca o apito e abre a gaiola do encantado.

Olivia dá a luz a um saruê dos anjos.

Fim dessa novela.

Começa um novo Chico.

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