Não somos viciados em internet

13/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Queremos sangue. Nossa gênese é sanguínea. No principio era o sangue. Caim sangrou Abel. Deus pediu para Abraão sangrar seu filho. Jesus tentou lançar o movimento hippie fora de época e foi mais sangrado do que bife. Aliás, até hoje vamos na igreja beber o sangue dele.

Somos criaturas amotinadas com marretas. Não podemos criar, mas podemos destruir. Nossa sede de sangue é sede de destruição. Quando o centro avante cria o drible, o zagueiro esquece a bola e, com sangue nos olhos, dispara um chute na canela. O meião branco fica vermelho. Destruição executada.

Felicidade não dá ibope. Já escrevi um poema com esse título. Amor não rima com felicidade, nem com alface. Amor rima com dor, calor, furor, rubor. Amamos o sangue.

Claro que atualmente não podemos admitir nossa tara em público. Muito menos saciá-la. Leis racionais estão sempre prontas para sangrar os infratores. O que fazer?

Sangue virtual. Ao invés de hemácias e glóbulos brancos, bytes e pixels. Não tem a mesma sinestesia, mas facilita demais a vida, ou melhor, a morte. Ninguém vai preso e podemos sangrar uns aos outros via whatsapp, enviando emoticons. Ou melhor ainda, deixando de envia-los quando são esperados. 

Solução 24 horas e online. Se há sangue rolando em alguma parte do mundo, seja sangue físico, moral, psicológico ou afetivo, podemos ver, ouvir, curtir e compartilhar. 

Será que ficou claro? Para não restar dúvida vou dizer com todas as letras: não somos viciado em internet, somos viciados em sangue. Tá bem! Eu sei! Desconsiderei o lado positivo da convivência humana. Se existe mesmo, então, me perdoem por isso.

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