Músico no churrasco

14/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Desista! Você jamais foi, é ou será convidado para um churrasco. Sim, você recebe muitos convites: aniversários, noivados, batizados, domingo na laje, etc. Motivo para comer churrasco e beber cerveja não faltam. Convites não faltam. Mas não se iluda. Quando lhe dizem gentilmente: “Vai ter um churrasco lá em casa, aparece lá”. Você não está sendo gentilmente convidado para participar e sim para animar a festa. Você é a banda do Zé Pretinho. “Aparece lá” não é convite, é jeitinho brasileiro de contratar sem cachê.

Até aí nenhuma novidade. Você sabe disso. Não é um fato que você gosta de admitir, mas você sabe que é fato. O problema é que mesmo sabendo, você vai. E por que você vai? Simples. Vou te contar. Você vai empurrado pela vista grossa, pelo sentimento gregário, pela esperança e pela maldição que Milton Nascimento e Fernando Brant lançaram sobre sua profissão: “Todo artista tem que ir aonde o povo está”. Só um músico para amaldiçoar o outro desse jeito! Você já ouviu algum outro profissional dizendo “Todo seiláoquê tem que ir aonde o povo está”? Nunca!

“Que bom que você veio!”, diz o dono do churrasco quando você chega. E você se sente especial, querido, reconhecido, aplaudido, como tanto gosta. “Me dá um minutinho que já volto”, diz seu anfitrião entrando para dentro da casa. Você acha que o cara vai pegar uma cadeira, uma cerveja e um prato para você se servir. Nada disso. Seu contratante disfarçado de anfitrião volta com um violão. Você é músico, não é vidente, mas basta você relar no braço do violão que você adquire o poder de prever o futuro. Você vê tudo que irá lhe acontecer desde aquele instante até a célebre frase.

O dono do churrasco empilha alguns engradados de cerveja para você se sentar, pois acabaram as cadeiras. O povo abre um círculo na sua frente. O palco está montado. Casa cheia. Lotada. A expectativa pela primeira música se mistura ao burburinho e ao cheiro de vinagrete. Alguém pede para você tocar uma música que você não sabe tocar. Você faz um dedilhado, confere a afinação e toca uma outra do mesmo estilo. Agrada do mesmo jeito. O povo se anima e começa a cantar junto. Você está em plena realização do ofício e da maldição.

“Onde fica o banheiro?”, você pergunta. Você quer mijar. Não porque bebeu muita cerveja, mas porque está tocando a mais de uma hora sem parar. Sua única relação com a cerveja até aquele momento foi através da pilha de engradados que lhe serve de cadeira. Enquanto a cerveja fez alegrar o povo, para você, apenas quadriculou sua bunda. Na volta do banheiro, você consegue fazer um prato com churrasco e maionese, e consegue pegar um copo de cerveja também. Sua esperança é comer e beber entre uma música e outra. Só que não tem intervalo entre uma música e outra assim como não tem intervalo entre a nota mi e a nota fá. A esperança que espere. Afinal, é para isso que serve.

Cinco horas se passam e você já tocou de tudo, até parabéns pra você. A cerveja já acabou, a caipirinha já acabou, a carne já acabou, mas o domingo ainda não acabou, pelo menos enquanto a televisão não tocar a música do fantástico. Você ameaça ir embora e escuta a célebre frase: “Toca Raul”. Que alegria! “Toca Raul” é sua carta de alforria. Fim da festa. Mesmo que você tiver que tocar oito vezes Metamorfose Ambulante, dali não passa. São 5 fases. Todo músico conhece. Fase 1: toca uma ai. Fase 2: toca aquela. Fase 3: toca Roberto Carlos. Fase 4: toca Raul. Fase 5: ressaca.

Você entrega o violão para um cara que sabe aqueles quatro acordes que dá para tocar de Bob Marley a Kid Abelha. Finalmente suas mãos voltam a ser suas. Você pega o prato com churrasco e o copo de cerveja. Como sempre, a cerveja está quente e o churrasco está frio. Você come a maionese. Volta para casa. Toma um banho quente. Liga a televisão. Escuta a música do fantástico. Desliga a televisão. Dorme. Na manhã seguinte, você acorda e percebe a vantagem da desvantagem: você pulou a fase 5.

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