Morador de rua

14/04/2003 by in category Crônicas tagged as , , , with 0 and 0

Caminhávamos em prosa e verso por uma longa avenida.

— Para onde estamos indo?
— Estamos indo para o ponto — respondi.
— Para que?
— Para pegar o ônibus.
— Pegar o ônibus, para que?
— Para voltarmos para casa.
— Este é o ponto!
— Que ponto?
— E se não houvesse casa para voltar? — ele perguntou.
— Como assim!?
— Nós ficamos na rua durante horas, as vezes dias, quando viajamos, meses, mas sabemos que estamos fora de casa, que estamos caminhando e que podemos parar de caminhar e voltar para casa. E se fosse diferente?
— Diferente como? — perguntei.

Meu amigo nadou até o meio da rua. Seus olhos brilhavam de angústia. Ele respirou fundo para poder parir aquele pensamento insano. Sentei na sarjeta. Eu era apenas parte da circunstância dele. Ele estava conversando com a rua infinita, a rua somatória, a rua atrás da fogueira de platão, a rua na cabeça de deus.

— E se a casa fosse a rua?

Mesmo um paraquedista em queda está voltando para casa. A queda livre é a rua que o leva de volta ao chão. Meu amigo havia acabado de tirar o chão do paraquedista. E se não houvesse lugar para voltar? Se a casa fosse a rua? Se a queda fosse o chão? Se não houvesse lugar para cair senão em si? How does it fell? Calafrio! Continuei andando. Eu precisava sentir a força da gravidade. Era muita liberdade ser morador de rua.

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Espalhe a palavra!

Marcelo Ferrari


Nasci ontem. Quando fiz dez anos, completei dezoito. Tenho um chinelo azul com alça vermelha que não serve para poesia. Escrevo o que a inspiração põe e a expiração tira. Não uso heterônimos, sou usado por eles. Só sei ser sendo, dançar dançando, escrever escrevendo e ferrari ferrariando. Minha literatura não é pá pum e pronto! É pá pum escreve. Pá pum lê. Pá pum edita. Pá pum relê. Pá pum reedita. Pá pum rerelê. Pá pum rereedita. Até que pá puta que pari! Nunca estarei ponto! E pronto! Me imagine tocando violão. Sempre. Ininterruptamente.

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